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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Muito além de nossos pais
Por Élide Camargo Signorelli
01/06/2009 | Fonte: Integral.br
Quando numa família um dos pais é autoritário, dominador, ou então radical ou exigente demais, isso pode empurrar o filho a uma situação muito difícil de administrar. A criança se baseia nos pais e nos adultos à sua volta para se constituir como sujeito. É através das diversas identificações que ela irá extraindo elementos que irão compor o que será, mais tarde, a sua identidade pessoal. Trata-se de um longo percurso, diário, minucioso, e permeado de afetos de amor e ódio, além de tudo. Mas também vale lembrar a capacidade que o ser humano tem de ultrapassar, de ir além das tendências deterministas, simplistas e reducionistas. Hoje, no século XXI, temos de buscar um olhar mais amplo sobre as coisas, entendendo que não há sentido em se impor fórmulas de causa-efeito, sendo fundamental considerarmos que há um espectro de elementos presentes numa situação, que foge ao nosso alcance, esse que insiste em compreender os fenômenos da vida como simples equações matemáticas, sociais ou culturais.
Digo tudo isso para que não caiamos no velho risco de pensarmos que "tais situações geram tais efeitos", "tais pais geram tais filhos", "tais traumas geram tais sintomas", e assim por diante. Mas, desde que consideremos a relatividade e as limitações de nossas reflexões, podemos e devemos refletir sobre alguns fenômenos presentes nas dinâmicas das relações humanas, por exemplo, com o intuito de ampliarmos nossa visão e libertarmo-nos de certos mitos ou confusões.
Especificamente neste artigo, estou me referindo a esse modelo autoritário de relação parental, que citei acima, e que lembra, ainda, o modelo vigente no século XIX, em que a família tradicional estava assentada em valores burgueses e os princípios e papéis sociais eram definidos de forma a deixarem bem claro o que se pretendia. O certo e errado, o normal e anormal eram critérios bem determinados, evidentemente incluindo o preço desse determinismo, como a histeria e neurose obsessiva, patologias daquela época.
O que se observa é que diante de coisas ou situações tão determinadas e enrijecidas, o jovem - objeto do meu interesse aqui - encontra algumas dificuldades para desenvolver, então, a sua subjetividade, de forma mais autêntica. Reconheço como é difícil pensar o que seria uma subjetividade mais autêntica, mas, no mínimo, seria algo fruto da liberdade necessária para uma circulação mais criativa dos elementos que se apresentam no espaço em torno do sujeito.
O adolescente, temeroso de não conseguir afirmar-se como alguém separado dos pais, pode, muitas vezes, rebelar-se, como a única maneira que encontra para defender-se contra a submissão. Isso pode manifestar-se através de sintomas físicos, de recusa à escola e aos estudos, das drogas, de amizades com pessoas igualmente rebeldes, e outras atuações, em geral destrutivas.
Muitas vezes, por trás de manifestações e estados como esses, está um legítimo anseio de proteger sua autonomia e independência. Se o jovem associa que cuidar da sua vida, num sentido construtivo, significa obedecer aos pais autoritários e dominadores e tornar-se, assim, o filhinho passivo e dominado, essa forma de interpretar as coisas poderá levá-lo a tomar atitudes contrárias, apenas para impedir esse risco. O que ele deixa de perceber é que, para proteger sua identidade, ele acaba destruindo sua vida e pagando um alto preço por isso.
Para Ser, o adolescente deixa de Ser, que ironia. Nesse cenário que se fecha dessa maneira, é preciso que o jovem consiga discriminar-se de seus pais, entender-se com objetivos e sentidos que estão além dos objetivos e sentidos dos pais, mesmo que, na prática, estes coincidam.
Trata-se de difícil exercício, o de conceber uma liberdade inerente ao fato de que os acontecimentos, os fenômenos, os aspectos que transitam nos espaços relacionais ultrapassam o determinismo simplista. Entre as coisas, sobre elas, sob, abaixo e acima, além e aquém, dentro e fora, num infinito, estão o inconcebível, o desconhecido, tudo que nos escapa.
E nós aí existimos... muito além de nossos pais.
Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.