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Artigos - Psicologia

Professor e aluno: que relação é essa?
Por Élide Camargo Signorelli
22/01/2009 | Fonte: Integral.br

Ainda me lembro de quando iniciei minha carreira de estudante, nos idos de 1963. A escola era particular e de orientação religiosa. Havia professores comuns e algumas freiras que também lecionavam. Quando os professores entravam na sala de aula, a classe imediatamente se levantava e cada um se punha atrás de sua cadeira, em sinal de respeito. O professor era uma autoridade, não tínhamos a menor dúvida sobre isso. Éramos todas meninas e o clima era de seriedade, quase austeridade. Eu, particularmente, por ter sido uma criança tímida, sentia medo dos professores, mais de uns do que de outros, dependendo da postura de cada um. Só abríamos a boca para responder às perguntas que o professor nos fazia e, de vez em quando, para fazermos alguma pergunta a eles. De resto, a situação era bem clara, de um lado estava o professor com sua sabedoria e, do outro, estava o aluno, na posição de aprender.

Quase meio século depois, as coisas mudaram muito! Professor e aluno não são mais o que eram. As relações se democratizaram e o desejo de maior liberdade levou as pessoas a romperem com as estruturas repressoras e autoritárias que, em muitas situações, se impunham.

A estrutura familiar mudou, com a saída da mulher para o mercado de trabalho. Seu papel, que até então se restringia ao de mãe e dona de casa, se ampliou, lançando-a para fora, na competição por um lugar junto aos homens. Esses, por sua vez, ainda estão tentando absorver essas mudanças, coisa que depende de um difícil trabalho de revisão de seu próprio papel na sociedade mais ampla e na família. Se a mulher não é mais tão dependente, o que resta para o homem?

E o núcleo familiar, como fica? O casal se evade da família. Na melhor das hipóteses, restam os filhos, assistidos pela empregada doméstica ou pela babá. Esses também mudaram, consequentemente. Estão atarefadíssimos, com sua agenda diária preenchida por compromissos diversos, todos em prol da melhor formação.

Tudo isso é o universo das classes mais abastadas, claro.

Voltemos à escola. Ela deixou de ser, única e exclusivamente, o lugar que representava a educação como travessia necessária para a aquisição dos conhecimentos, assim como o lugar da cultura. A escola, agora, ganhou mais uma função, a de tornar-se um ancoradouro para os pais, que não podem deixar seus filhos sozinhos em casa ou na mão de pessoas despreparadas.

Esses dias, conversando com uma moça que está prestes a dar à luz o segundo filho, ouvi dela que não tem com quem deixar as crianças, que só tem um mês de férias por ano e que o jeito é colocá-los na escola, o dia inteiro. Essa mesma moça, assim que se casou, gostava de falar sobre seus sonhos em relação aos filhos e sobre o anseio de que fossem criados com carinho, atenção e afetividade, pelos pais ou pelas avós.

O aluno de hoje é esse filho, que nasce nessa estrutura, em que pai e mãe estão fora de casa, em busca da sobrevivência e, ao mesmo tempo, ávidos pelo que o mundo oferece.

Isso tudo vem provocando muitas reações, confusões e perturbações, porque, se foi um desejo afrouxar os laços rígidos que amarravam as pessoas a seus papéis e lugares, não se encontrou ainda, em contrapartida, o que se colocar no lugar.

A escola recebe seus alunos com essa sobrecarga de responsabilidade, a de compensar a falta dos pais. É uma falta que significa a renúncia a um lugar de referência.

Professor e aluno se encontram nesse contexto. O professor, desamparado, não tem mais certeza sobre sua função. Com a decadência da figura paterna como era entendida, não se sabe mais o que fazer com o homem, e, consequentemente, com o pai, professor e outros. O aluno, ao contrário, parece cheio de certezas, quase arrogante, pois vem aprendendo que pode desafiar a autoridade, com grandes chances de vencê-la, visto que se trata de uma autoridade insegura, culpada e cheia de desejos que projeta sobre seus reféns. Mas, na verdade, ele, aluno, é um ser também inseguro, pois, ao mesmo tempo em que provoca os adultos, não deseja vencê-los. A sua seria uma vitória falsa, que significaria a perda de referenciais de que ele tanto precisa para se desenvolver.

São necessários muita clareza e muito discernimento para que as coisas encontrem não mais os mesmos lugares, mas outros, novos.

O professor precisa se reencontrar com a sua função, simbólica, de representar a cultura. Ele é mais que um funcionário que presta serviços à sociedade. Ele tem de suportar o fracasso inerente a todo processo educativo, vista a grandeza de sua abrangência, mas sem perder-se de sua importância, e sem perder, também, a esperança.

Soube de uma professora que, em meio a uma aula muito perturbada pela indisciplina, interrompeu o que fazia e dirigiu-se à classe de alunos de 7 anos e disse: "Vocês já pararam para pensar que este é o meu trabalho, que eu estou trabalhando? Imaginem se vocês fossem ao trabalho de seu pai e começassem a dar risadas, fazer bagunça, atrapalhando o que ele estivesse fazendo...". Pois é, essa professora nada mais fez que chamar à consciência de seus pequenos alunos a constatação de que ali havia alguém trabalhando, reafirmando, assim, a importância de sua função. Além disso, ao evocar o pai, ela tenta direcionar o respeito que se dirigiria a ele para o professor.

O professor é representante da autoridade, da função paterna, que acompanha o aluno nessa passagem do mundo infantil para o mundo adulto. O professor deve ocupar o lugar do adulto que é, para que o aluno se torne um ser humano e civilizado.

Aprender é, na maioria das vezes, aprender "com alguém", ainda que nem sempre "de alguém". O ser humano não se faz sozinho. Ele precisa de alguém, de um adulto que acredite na sua função para que ele também possa confiar em si e no que faz.

Voltando à pergunta do título: "Professor e aluno, que relação é essa?", proponho a resposta de que é uma relação de mútua dependência e de ambiguidades, como todas as outras relações. Um precisa do outro, cada um com sua importância. Uma relação em crise, que reivindica não queixas e saudosismos, mas uma aceitação das mudanças para que novas construções sejam empreendidas.

Élide Camargo Signorelli , é psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

 

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