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Artigos - Psicologia

Um sonho para 2009
Por Élide Camargo Signorelli
29/01/2009 | Fonte: Integral.br

Gosto dos sonhos. Eles são reveladores, delatores. Desarrumam aquilo que a consciência teima em aparentar. São às vezes desconcertantes porque contrariam ou, por outro lado, dizem aquilo que não queremos dizer, sentir, ou pensar. Por isso gosto dos sonhos. Para mim, são a nossa chance de autenticidade, de encontro com as nossas realidades internas.

Na primeira semana do que chamamos de ano novo, tive um sonho. Vou contá-lo:

"Eu ia participar de uma espécie de jogo. Tratava-se de algo relacionado à sobrevivência na selva. O dia marcado para a aventura estava chegando e só na véspera me dei conta de que eu não havia me preparado, e aí comecei a ficar preocupada.

Vi que uma pessoa que havia participado desse jogo estava vestida com um short com bolsos laterais, nos quais ela levava arroz. Fiquei surpresa com a iniciativa e pensei que a ideia fosse muito boa".

Poderíamos fazer muitas elucubrações a respeito desse sonho. Se o contasse numa sessão de análise, abriríamos, o analista e eu, vários caminhos de investigação. Mas vou me ater apenas ao que está na superfície. A primeira coisa que me veio à mente, quando pensei em selva, foi na vida. Acredito que a vida possa ser comparada a uma selva, com seus aspectos primitivos, naturais e por vezes violentos. Quando se fala em sobrevivência, logo se imagina que estará se tratando de desafios, de algo de vida e morte. A selva é um lugar primitivo em que as forças da natureza, sexuais, agressivas e vitais, estão em trânsito constante. É assim que estou vendo a entrada nesse novo ano, como um jogo de sobrevivência na selva, uma selva que tanto pode ser o meu mundo interno, com meus impulsos, como o mundo externo com suas pressões e exigências.

O sonho revela minha sensação de não estar preparada para tal experiência. Mas que providências eu poderia tomar para me sentir preparada? Podemos começar o ano com muitos planos, projetos e promessas, iniciativas que nos darão a sensação de domínio. Mas qualquer preparação não deveria incluir, além disso, a reserva de um espaço para o imprevisível, para o misterioso, para as surpresas? Se já vamos sabendo muito sobre nosso futuro, não poderemos nos tornar reféns de uma necessidade extrema de segurança e de garantias? Enfim, estarmos preparados para algo deveria cogitar um tanto de despreparo.

Voltando ao sonho, atenho-me ao short, que para mim remete à ideia de calça curta e aí me vem a expressão "ser pega de calça curta", que significa estar desprevenida. Mas o interessante é que, apesar dessa imagem, a pessoa estava preparada. Isso reforça o pensamento de que uma verdadeira preparação para a vida reservaria lugar para certo despreparo no sentido de se estar aberto para o desconhecido e para os mistérios.

E, finalmente, o arroz nos bolsos laterais do short evoca-me duas associações. A primeira é a de pensar em arroz como o alimento básico. É aquela massa que dá a base para os outros alimentos, que mata a fome, que garante a sobrevivência. Nesse sentido, estar preparado para a aventura de viver é ter, "nos bolsos", o recurso básico. O arroz, para mim, representa a mãe que alimenta seu filho com os cuidados e afetos fundamentais para a formação de sua identidade e de sua capacidade de pensar e de ser, então, um sujeito. Se levarmos essa mãe-arroz em nossos bolsos, teremos confiança, coragem e capacidade suficientes para enfrentar todos os anos novos que teremos pela vida afora. Basta que seja o suficiente, não precisa ser uma provisão total, pois é preciso assegurar o espaço da falta, que é o que nos leva adiante, sempre a buscar algo vida afora. É o que nos torna humanos.

A segunda associação para arroz traz a cena familiar do punhado desse cereal que as pessoas jogam sobre os noivos, no dia do casamento. O sentido é de prosperidade e de sorte para o casal que está se preparando para entrar em sua selva particular. Da mesma maneira, penso que o arroz atirado pelos convidados representa um reforço dessa base constituída, que, se assim estiver suficientemente assentada, assegurará uma capacidade para os desafios diversos.

Enfim, espero estar preparada ou despreparada o suficiente para o ano de 2009.

Élide Camargo Signorelli , é psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

 

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