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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Espere a piscina encher
Por Élide Camargo Signorelli
05/02/2009 | Fonte: Integral.br
Pois é, várias situações vão acontecendo no decorrer da trama e esse homem vai levando as rasteiras que o conduziriam à transformação que se nele se operou. Uma dessas situações originou o título deste artigo. Ele precisa tirar fotos da fazenda que herdou do tio, e que pretende vender. Está muito apressado, pois não pode perder tempo, e o excesso de impaciência o coloca, então, numa situação, no mínimo, curiosa.
Ao se apoiar num trampolim de uma piscina abandonada, este se quebra e o homem é lançado ao fundo. Não existe água, apenas restos de terra, folhas, objetos que caem à deriva. A piscina é um tanque, um quadrado que supera, em profundidade, a altura do homem, aspecto que impossibilita, então, a sua saída. Apesar de ser um tanto aflitiva também, a cena é hilária, pois ele começa a fazer inúmeras tentativas para sair dali. É uma sucessão de trapalhadas, um momento de pastelão. Ali está um homem acuado, num quadrado, e ele, que se considera um homem livre, fica, momentaneamente, reduzido àquela situação.
A queda é dramática, pois ele, trajando terno empoado, cai de bruços, com a cara na lama. Começa a patinar, perde o chão e torna a cair. São várias as quedas. O celular, esse objeto símbolo de poder, que alimenta a ilusão de acesso ilimitado a tudo, está na beira da piscina, que ele não alcança. Ele está preso e, julgando-se sem saída, se desespera e se debate. Como eu já disse, a situação é angustiante, mas, da forma como é encenada, provoca risos, o que nos alivia muito.
No meio tempo aparece uma moça que, por estar com raiva dele, não o ajuda a sair dali, mas, antes de ir embora, abre as torneiras que começam a encher a piscina. E aí é interessante acompanhar o desenrolar da cena. Com a água, o personagem sabe que conseguirá alcançar a beira da piscina, mas até lá ele tem de esperar. E, enquanto espera, ele começa a curtir, digamos, a situação. A esperança de sair o ajuda a aguardar. Ele brinca na água suja, flutua até fazer a tentativa que o tira, finalmente, desse buraco.
Onde pretendo chegar? Enquanto assisto, entre risos e aflições, vou pensando algumas coisas. Claro que é muito bom ver aquele homem sendo tombado pela vida, pois sua arrogância é insuportável.
Mas, pensei, também, em todas as situações em que as pessoas se veem ou se sentem presas, impotentes, sem saída, e que ficam se debatendo em tentativas patéticas de se livrarem imediatamente daquilo. Lembro-me das mães que acabam de ter um filho e que precisam "se internar", com o bebê, numa condição íntima e exclusiva de cuidados, para que a criança faça essa transição do útero para o mundo real. Lembro-me, também, dos momentos de crise existencial, em que a pessoa precisa fazer mudanças, mas, por um tempo, se sente sem saídas, ou com escassas perspectivas. Lembro-me dos estados de doença física, que obrigam a pessoa a ficar em repouso e limitada. Lembro-me, finalmente, das situações de fracasso ou de frustração de certo objetivo e que obrigam a pessoa a recomeçar, como acontece no vestibular, em concursos, rupturas amorosas, morte e perda de pessoas importantes, ou qualquer outro alvo almejado.
Se acaba havendo um momento de desespero e desejo de sair logo dessa situação que confina e oprime, é interessante que isso dê lugar a um outro estado que teria a ver com essa imagem, de uma piscina que vai enchendo de água. A água, nesse caso, representa, para mim, a construção de conteúdos que vão preenchendo o lugar e tornando-o, gradativamente, uma oportunidade de experiência. Os conteúdos podem ser sentimentos, pensamentos, memórias, descobertas, sonhos, enfim tudo que ao ser evocado vai "equipando" a pessoa de elementos para elaborar a experiência que está vivendo ali. Isso não é possível se houver desespero, pois este cega. A pessoa que só pensa em sair logo do que a aflige fica impedida de olhar para o que está à sua volta e descobrir coisas que podem ser importantes para o seu crescimento pessoal. Ficar um tempo olhando para o fracasso, para a frustração e impotência, e até mesmo para o vazio, se for esse o caso, pode ser necessário dentro do processo de elaboração de uma experiência. É um passo dentro disso.
Não se trata de uma experiência passiva. Ao contrário, há muito que fazer nisso, há muito que pensar, sentir e providenciar.
Espere a piscina encher.
Élide Camargo Signorelli , é psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.