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Artigos - Psicologia

Trote universitário: amor e ódio
Por Élide Camargo Signorelli
13/02/2009 | Fonte: Integral.br

A Folha de S. Paulo noticiou, hoje, o caso acontecido em Leme, na Universidade Anhanguera Educacional, com calouros de medicina veterinária. Nesta segunda-feira (9/2/09), um rapaz, de 21 anos, foi internado em coma alcoólico após ter sido obrigado a beber bebidas muito fortes. Além disso, também foi pressionado a entrar em uma lona que continha restos de animais em decomposição, fezes e esterco, e ainda recebeu chicotadas, tendo o pescoço amarrado por uma corda. Foi deixado na sarjeta perto do campus e deu entrada no hospital como indigente. Esse é mais um dos vários casos já noticiados e sabidos por todos nós. Os veteranos, cerca de 40, aplicavam o trote, enquanto parte deles filmava e tirava fotos, exibidas, em seguida, na internet.

O estudante desistiu de cursar a faculdade, pois teme represálias.

Circulando pelas avenidas da cidade, podemos ver vários grupos de jovens parados nos semáforos, fazendo o que chamam de pedágio. Quase sempre estão pintados, dos pés à cabeça. Eu mesma presenciei o trote de minha filha, que no ano passado ingressou na USP. No dia da matrícula eu a acompanhei até a universidade e o clima era de excitação geral, com forte carga emocional, essa que acompanha a aprovação numa faculdade. Eu assisti minha filha levar um banho de várias tintas, que a deixou irreconhecível, visto que seu cabelo e rosto, principalmente, ficaram cobertos. A roupa foi jogada no lixo. Com um riso que foi ficando amarelado, eu pensava: "Isso é razoável mesmo?". "Que garantias minha filha tem de que esses colegas terão noções claras sobre os limites dessa situação?".

Da tinta para o chicote estará clara a fronteira que separa a brincadeira juvenil do sadismo? E será mesmo uma brincadeira juvenil? Questões como essas ajudam a pensar, principalmente porque nessas situações de grupo e de massa não existe lugar para o pensamento, deixando, muitas vezes, o impulso à deriva.

Em artigo passado, "Nós não somos só bonzinhos" e "Quando eu crescer quero ser poderoso", eu já trouxe esta reflexão sobre o quanto precisamos saber que trazemos em nós muitos elementos que não são propriamente dignos de louvor. O ser humano tem, em sua essência, elementos como agressividade, violência, sadismo, masoquismo, preconceito , inveja e outros que, quando não são conhecidos e minimamente elaborados, podem ser atuados sem o menor escrúpulo. Temos uma tendência a colocarmos a maldade no outro, fora de nós. Preferimos ser donos da bondade, generosidade, sentimentos mais nobres e atribuímos ao outro todo nosso lixo humano.

Esses rituais de passagem de uma situação para outra, como o vestibular e o ingresso à universidade, acabam fornecendo, muitas vezes, referências para que alguns impulsos sejam realizados, protegidos pela justificativa que os "enquadra" e, ao mesmo tempo, os libera.

É grande o poder que um grupo exerce sobre o indivíduo. Há uma atração em torno da condição de submissão ao grupo. É narcísica a ideia de estarmos igualados, em um grupo que, ao mesmo tempo, exclui todo aquele que ameaça ser único e diferenciado. Junte-se a isso o fanatismo e a tolerância vai por água abaixo.

Aliado a fenômenos socioculturais, incluo o fato de que, nesse caso em especial de ingresso à universidade, deve estar presente um elemento que, se não justifica e desculpa, pode esclarecer um aspecto de toda a situação. O jovem está num momento muito importante de sua vida, em que finaliza um ciclo e fecha as portas para a infância e adolescência. A universidade representa o lugar final de transição para o mundo adulto, em que o jovem ensaiará os primeiros exercícios de aquisição de sua autonomia, independência, com as responsabilidades inerentes.

E assim como em todos os momentos da vida, esse é mais um em que a ambivalência está presente. Ou seja, se por um lado o jovem está imbuído do desejo de lançar-se ao mundo adulto, por outro ele constata que tem de deixar coisas para trás, para poder ir em frente. Isso significa que há perdas importantes como dos possíveis confortos da infância e adolescência, e da condição de não ser, ainda, totalmente responsável por si mesmo. O crescimento exige renúncias, sacrifícios e o abandono do princípio do prazer que coloria a vida com toques mágicos e onipotentes.

Essa notícia que a vida dá - a todos nós - pode ser recebida com muito ódio, como uma violência sobre a sua condição. Sem dúvida é uma ferida narcísica, uma ferida na ilusão de perpetuar, por mais tempo, uma condição infantil. Por isso, penso que os veteranos, feridos em seu narcisismo, esperam, ao receber os calouros, a oportunidade de ser os agentes dessa "notícia". É como se eles dissessem aos calouros: "Se vocês, irmãozinhos mais novos, pensam que vão ficar com essa alegria por muito tempo, estão enganados. Acabou a mordomia. Daqui pra frente somos responsáveis por nossas atitudes, temos de fazer sacrifícios e renúncias, saibam disso por nós!". E, assim, os veteranos, de simples feridos e humilhados pela vida, passam a ser detentores desse saber. É uma maneira de triunfarem sobre a vida, escapando de aceitarem essa situação que, afinal, é natural. E, de quebra, ao estragarem a alegria do calouro, se aliviam por não verem nele a ilusão que um dia foi ferida.

A consciência sobre esses sentimentos é, a meu ver, fundamental para o domínio suficiente sobre nossos impulsos sádicos e para a elaboração dos lutos.

Élide Camargo Signorelli , é psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

 

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