UNIDADE I
R. Cel. João Leme, 410Bairro: Centro
Fone: (011) 4033 1118
UNIDADE II
Av. Salvador Markowicz, 571Bairro: Jd. Sta. Helena
Fone: (011) 4032 4971
UNIDADE III
Av. Salvador Markowicz, 541Bairro: Jd. Sta. Helena
Fone: (011) 4033 5352
contato@cursointegral.com.br
Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Pensando a profissão
Por Élide Camargo Signorelli
11/03/2009 | Fonte: Integral.br
Tenho pensado o quão importante é esse momento em que o adolescente tem de se defrontar com a escolha de uma profissão. Se por um lado ele se sente minimamente preparado no sentido da aprendizagem de vários conhecimentos adquiridos dentro e fora da escola, não é o que acontece no sentido, digamos, emocional, em que ele é empurrado a fazer escolhas e a tomar decisões, quando ainda não se sente maduro o suficiente para isso. O tema é tão vasto e intrincado que resolvi abordá-lo em partes. Por isso, iniciei uma reflexão no artigo passado, com a intenção de construir uma base para os próximos artigos.
Se alguém acredita que escolher uma profissão é uma missão que "cai de paraquedas", magicamente, na frente do adolescente, está redondamente enganado. Talvez a exigência de resolvê-la aconteça sob pressão e quase sempre de supetão. Os questionamentos envolvidos nessa tarefa de pensar uma profissão são elementos de um processo que vem sendo construído desde que a pessoa nasce. Tanto é assim que já aos primeiros pontapés que o bebê desfere na barriga da mãe, para poder se ajeitar melhor, pode ser interpretado como o prenúncio de uma profissão: "Ah, acho que ele vai ser jogador de futebol". A vida inteira carregamos sonhos sobre os filhos, que esperamos que eles realizem "para nós" e "por nós". São sonhos compensatórios, reparatórios das frustrações que vivemos. Incluem desejos de continuidade e perpetuação: "Meu filho irá cuidar da empresa que eu criei"; sonhos de compensação: "Meu filho vai ter tudo que eu não tive"; sonhos de reparação: "Ao ser advogado, ele lutará pelas injustiças que sofri e das quais não consegui me defender"; entre outros.
Dentro da bagagem que vamos formando para empreender essa viagem que é viver, vamos levando várias coisas, frutos do que absorvemos pelo caminho. Todas as experiências que vivenciamos têm alguma importância porque fornecem elementos para um conhecimento que irá se ampliar e criar, afinal, a nossa identidade. E a escolha, seja do que for, do estilo de roupa que usaremos, dos valores que carregaremos, da profissão que assumiremos, dos companheiros que amaremos, dependerá da formação dessa identidade.
É essa questão, então, que está em jogo quando o adolescente ensaia as primeiras ideias sobre uma profissão. Será com a sua identidade que ele precisará contar, como base para pensar sua vida, seja amorosa, profissional ou outras. E a formação da identidade se constrói a partir, principalmente, das identificações que fazemos, daquilo que escolhemos extrair das experiências, do que observamos e do que deixamos de observar, e das capacidades que temos para elaborar o que vivenciamos e integrar isso tudo. Sofremos decepções, desilusões e perdas, e fazer os lutos disso é importante para a continuidade do processo de desenvolvimento pessoal.
Não é coisa fácil de explicar, mas o ser humano, nesse desenvolvimento, se constitui dentro da estrutura familiar, pai-mãe-filho, na qual fica detido durante a infância, mas da qual precisa se desprender para poder se tornar um sujeito adulto, autônomo e independente, e para poder dar andamento ao ciclo natural das coisas: nascer, crescer, envelhecer e morrer.
Se o jovem não abandona essas posições infantis, não pode seguir em frente. Considerando também que há em nossa origem uma falha básica que significa que nunca teremos tudo, que sempre faltarão coisas, que a falta é algo inerente à vida, a consciência e a aceitação desse princípio nos libertarão para irmos em frente, buscando, nas ilusões necessárias, aquilo que, por ironia do destino, nunca obteremos de forma completa. Mas, de qualquer forma, precisamos colocar ou enxergar algo à frente para criarmos coragem de buscar e coragem de deixar as tais posições infantis, caso contrário poderemos ficar detidos no conformismo. É como se perguntássemos: "A troco de que vou deixar essa situação confortável de ser criança, de não precisar me responsabilizar pela minha vida e tampouco de cuidar dela com tudo que isso significa?". "O que é que eu ganho em crescer?". Olhe as perguntas aí, de que falei no artigo passado.
Nós queremos compensações, garantias, seguranças para concordar com a desistência de situação tão confortável. E é por isso que criamos o que em psicanálise se chama ideal do ego. Trata-se de uma condição criada como consequência da necessidade de abandonarmos as posições infantis, criando outros alvos - embora narcísicos também - que não sejam mais papai e mamãe, com tudo que eles representam dentro de nós. São alvos que se tornam atraentes para serem perseguidos, conquistados, e através dessa busca podemos nos distanciar dessas figuras paternas, porque agora temos um sentido para isso. Se o jovem acredita que nada lhe falta, que está absolutamente satisfeito na condição de criança, não encontrará motivos ou sentidos para sair dali e explorar condições e caminhos novos. Da mesma maneira, se acredita que a infância e os pais lhe devem coisas, ainda, também não conseguirá sair, pois ficará esperando por aquilo que pensa que precisa para lançar-se ao mundo.
O ideal do ego está depositado nas diversas situações de nossa vida, no amor, na profissão, em tudo que sonhamos, que desejamos e almejamos. A profissão é, então, um ideal de ego, aquilo que o jovem imagina, sonha, que estará à sua frente, e que o instiga a sair de sua comodidade infantil. Esse ideal carrega elementos das imagens que ele traz dentro de si e que tem a ver com os pais da infância. Por aí vemos como essa escolha está atrelada ao desafio de se deixar de ser criança. E é por essas e outras que não se trata de fácil tarefa.
Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.