INTEGRAL - Pensando a profissão III - Lutos

UNIDADE I

R. Cel. João Leme, 410
Bairro: Centro
Fone: (011) 4033 1118

UNIDADE II

Av. Salvador Markowicz, 571
Bairro: Jd. Sta. Helena
Fone: (011) 4032 4971

UNIDADE III

Av. Salvador Markowicz, 541
Bairro: Jd. Sta. Helena
Fone: (011) 4033 5352

contato@cursointegral.com.br
Bragança Paulista - SP

Artigos - Psicologia

Pensando a profissão III - Lutos
Por Élide Camargo Signorelli
23/03/2009 | Fonte: Integral.br

Este é mais um da série de artigos que venho escrevendo sobre o tema da escolha da profissão. Como é um tema muito abrangente, decidi abordá-lo destacando, separadamente, alguns dos muitos aspectos envolvidos nesse processo de desenvolvimento que culmina com a decisão sobre uma profissão.

Essa demanda, que vem do meio social e exige que o jovem escolha uma profissão, encontra-o num momento crítico, que é o da adolescência. É um período em que seu mundo interno, principalmente, sofre uma desestruturação. Aquilo que estava acomodado, de alguma forma, assentado, como valores, identificações, modos de pensar, entra em crise, pois o jovem, agora, está diante da tarefa de estabelecer sua identidade e passar a conceber-se, a cada dia, como um ser humano individual, autônomo e independente. Tarefa dificílima! Por isso se dá o nome de crise, pois supõe uma movimentação radical e dolorosa no plano físico, psíquico e social.

O que se espera é que o adolescente possa reestruturar sua base psíquica, digamos, e para isso ele precisa sair dessa crise com uma capacidade maior de discernir sobre as coisas, de discriminar fantasia e realidade, de perceber o que é ele e o que é o outro, de lidar com a vida de forma menos onipotente e arrogante, de promover um aprofundamento nas relações, sejam amorosas, sociais ou profissionais, de adaptar-se às mudanças, de aceitar as responsabilidades que lhe cabem, e de buscar instrumentos mais saudáveis e maduros para o enfrentamento da vida.

E o que impulsiona o jovem para isso, para a vida adulta, está ligado à emergência da sexualidade adulta, que está associada à capacidade de reprodução, e, além disso, à reorganização do ego e dos sistemas de valores. É um longo e árduo processo, que envolve muitas perdas e sofrimento, consequentemente, já que toda crise desacomoda o que parecia estável e é preciso saber tolerar um tempo de conflitos, confusão, solidão e de "bagunça interna" – e às vezes externa – porque será do contato, da consciência e da elaboração mental desses conteúdos emocionais que o adolescente poderá superar esse momento e se lançar para outra etapa em sua vida.

O aspecto que desejo tratar aqui é o das perdas que o adolescente sofre em meio a esse estado de turbulência emocional. Não há reestruturações sem perdas, tiremos nossos "cavalinhos da chuva". Nisso não há negociação e se alguém ficar obstinado na tentativa de passar ileso pelas crises, e sair delas apenas com os ganhos e vantagens, estará metendo-se em algo falso e superficial. E ainda onipotente, idealizado e voraz! A ideia é sair com a humilde e necessária consciência sobre nossas limitações para que também reconheçamos nossas capacidades. Toda perda envolve um trabalho de luto, que implica a consciência e uma nova acomodação emocional. Os lutos básicos da adolescência são:

O luto pelos pais da infância. Com a entrada do filho na adolescência, os pais não escapam de enfrentarem seus próprios conflitos. Além da crise do filho, se veem diante de uma crise própria da meia-idade, que também implica sofrimentos e angústias. Mas, apesar disso, e por causa disso, os pais devem providenciar uma postura mais adequada à nova condição. O filho já não é mais criança e, portanto, dispensa todo o rol de cuidados infantis e precisa encontrar apoio, respeito e consideração ao projeto adulto que se anuncia. Se o filho está às voltas com a elaboração da problemática edípica, os pais, por sua vez, também estão, à medida que revivem, através do filho, suas próprias histórias com seus pais.

O adolescente espera isso dos pais, o que não quer dizer que não se ressinta pelo fato de perder esses que o tratavam como criança. O ser humano é ambivalente e, sendo assim, está sempre às voltas com um querer e um não querer. David Léo Levisky diz que a crise de identidade do adolescente decorre como duas forças que se antagonizam: uma impulsionando-o para a vida adulta e outra atraindo-o para "os privilégios" ou características da vida infantil.

Outro luto se refere à perda do corpo infantil. Aqui há uma mudança, muitas vezes, radical. O corpo sofre transformações imprevisíveis. Não há o que fazer no sentido de controlar esse processo, e isso ameaça o jovem, que tem, então, que lidar com o novo corpo, a nova imagem, as sensações novas que o corpo anuncia, de prazer e de dor. É algo que vai desde a "dor do crescimento", que se refere à conhecida dor nos joelhos, tão comentada pelos adolescentes, até as sensações sexuais que também perturbam o jovem. Além disso, também ocorre aqui outra perda que é a da bissexualidade, com o encaminhamento para uma definição mais clara da identidade sexual. Tanto os rapazes como as moças têm de renunciar definitivamente às imagens incestuosas que os ligavam aos pais, como os primeiros objetos de amor, transformando-os em aspectos internos de sua identidade adulta.

Associadas com as mudanças corporais surgem mudanças psíquicas, introduzindo-se assim outro processo de perda, agora em relação à identidade, papel e capacidades psíquicas infantis. Se por um lado o jovem vai adquirindo maior capacidade de pensamento, de abstração, de simbolização, e isso o deixa mais "equipado", por outro ele perde o lugar de criança na família e na sociedade. Perde a condição privilegiada que o colocava em primeiro lugar nas situações de socorro, de emergência. O privilégio, ou o desejo por este, tem de ceder para uma atitude de maior assunção, de "estar à frente" da sua vida, de assinar pelos seus desejos e interesses.

Há outras perdas inerentes ao processo, como a da onipotência, dos ideais infantis e outras. A consciência sobre as perdas bem como sua elaboração ajudam o adolescente a movimentar-se em direção ao crescimento.

Élide Camargo Signorelli , psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.

 

Início Voltar

 

Home | Trabalhe Conosco | Política de Privacidade | Mapa do Site | Uniforme | Cardápio