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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Pensando a profissão IV - Sublimação
Por Élide Camargo Signorelli,
30/03/2009 | Fonte: Integral.br
Faço isso com o objetivo de proporcionar alguns conteúdos que ajudem o jovem, ou a quem se interesse, a pensar sobre o tema, considerando os elementos essenciais que o permeiam. Nos artigos passados, introduzi alguns desses elementos, que cito aqui: o ideal do ego,um conceito presente na passagem do mundo infantil para o adulto; as perguntas fundamentais que rodeiam a escolha da profissão; e os lutos inevitáveis da adolescência.
Neste quarto artigo, detenho-me na reflexão sobre um de alguns conceitos presentes no desenvolvimento da identidade como um todo, bem como da identidade profissional. Sugiro uma atenção para isso, para que possamos identificar, minimamente, as coisas que estão envolvidas em nossas diversas, e às vezes incompreensíveis, ações.
A sublimação é um desses conceitos. Sublimação é a conversão dos impulsos sexuais em habilidades mais evoluídas e criativas. A arte, de uma forma geral, a literatura, a música e mesmo o trabalho são exemplos de atividades resultantes da sublimação. Fala-se mais nos impulsos sexuais, mas pode-se incluir, penso, os impulsos agressivos também.
O ser humano vive em função de realizar seus desejos. Ele é um ser desejante. O desejo, aqui, está relacionado com as pulsões sexuais, que implicam uma carga de energia que precisa ser satisfeita para equilíbrio físico e psíquico. Existe uma pressão interna, uma quantidade de força que pede a satisfação das pulsões e que impele o sujeito para a ação. Mas esses impulsos não podem simplesmente ser descarregados de forma bruta e concreta. Precisam encontrar meios que garantam a sua satisfação e, ao mesmo tempo, protejam o lugar do indivíduo na sociedade, como um ser da civilização.
Freud, sobre isso, diz que o indivíduo, na busca de realização de seus desejos, tem três possibilidades de destino: ele pode negar seus desejos e assim não ter de lidar com eles; ele pode aceitá-los e tentar realizá-los; e pode sublimar esses desejos, desviando-os para outro objeto de realização. É esse, então, o sentido da sublimação, oferecer ao indivíduo uma possibilidade de realização dos impulsos sexuais, porém não propriamente de forma direta, mas por meio de destinos que deem outros sentidos e direções para esses impulsos.
O trabalho é a forma pela qual o sujeito pode fazer isso, pode renunciar à satisfação direta das pulsões, por meio da aceitação do princípio da realidade, que aponta para o seu lugar como sujeito civilizado. Há um pacto aí, do indivíduo com a cultura e, através do trabalho, ele sublima suas pulsões, ou seja, dá a elas um destino "civilizado", mais elaborado. Então, o interesse pelo conhecimento, o interesse intelectual, as atividades culturais e artísticas, e a atividade profissional representam as pulsões e são destinos possíveis e necessários para elas.
Desde que nasce, o ser humano está às voltas com as pulsões sexuais e agressivas. A criança, com o apoio da mãe e, depois, de outras pessoas, vai aprendendo a lidar com essas forças e precisa buscar formas evoluídas e criativas, como já disse, para poder ocupar seu lugar, inicialmente, na família e, gradativamente, na sociedade. E quando falo em apoio, refiro-me a certas condições proporcionadas pelos adultos para que esse desenvolvimento pessoal aconteça. É preciso, antes de tudo, acolher a criança através do reconhecimento de suas necessidades físicas e psíquicas e proporcionar a ela o espaço físico e emocional para que possa formar sua identidade e aperfeiçoar-se. Disso podem surgir o interesse pela vida, a curiosidade e a criatividade.
A adolescência é um momento criativo em função de ser um período de transformações. Aqui é importante observar uma coisa. Para que o interesse e a criatividade se desenvolvam, é preciso, ao mesmo tempo, que a criança e o adolescente tenham noção de limites. Parece estranho dizer isso, não? É mais fácil associar criatividade à liberdade. É verdade, mas não poderia ser uma liberdade caótica e sim uma situação, ao mesmo tempo com algumas fronteiras, algumas delimitações ou "leis" que construam um espaço dentro do qual se possa exercer a espontaneidade sem receios e riscos. Os limites, nesse sentido, não têm a conotação de repressão ou castigo, mas sim de organização mínima desse espaço.
Agora, num sentido social, hoje há uma insuficiência de dispositivos sublimatórios na sociedade, talvez pelo excesso de oferta de outros mecanismos que, em contrapartida, são frágeis porque não têm um compromisso com a busca de sentidos profundos. São superficiais e não oferecem ao jovem uma verdadeira sustentação simbólica. Hoje há uma valorização muito grande do dinheiro, do bem econômico, do consumo, como símbolos de sucesso, que prometem ao indivíduo tornar-se famoso, ou uma celebridade, e isso aniquila valores sociais e éticos que trariam outros sentidos de vida. Por causa disso, inclusive, o jovem tem tido muita dificuldade de produzir esses sentidos. Ao mesmo tempo em que parece que temos tantas opções culturais, como possibilidades de sublimação, não estão providas de elementos suficientes para servirem como destinos adequados às pulsões. Para isso, faltam os afetos, os sentimentos, as emoções, as sensações, os sonhos, a fantasia, a imaginação, que tornam as experiências e os contatos que fazemos "recheados" de sentidos.
Disso não podemos abdicar, caso contrário cairemos em vazios enormes e assim ficará muito difícil, não só pensar em um trabalho, mas, principalmente, viver.
Élide Camargo Signorelli, , é psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.