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Artigos - Psicologia

Pensando a profissão V - Reparação
Por Élide Camargo Signorelli
02/04/2009 | Fonte: Integral.br

Nesta série de artigos sobre a escolha profissional, venho abordando os aspectos principais sobre o tema, com a intenção de tornar um pouco mais rica a compreensão sobre o que está envolvido nesse processo que engloba a formação da identidade como um todo e a formação da identidade profissional como parte desta.

Nesses artigos estou trazendo "à baila", principalmente, os aspectos intrapsíquicos relacionados à formação da identidade profissional, o que não quer dizer que estou desprezando a planos inferiores os fatores socioeconômicos, igualmente importantes. Estamos em terreno privilegiado, inclusive, quando podemos nos dar "ao luxo" de pensar os fenômenos "de dentro para fora", como diz Rosane Levenfus, quando os fatores econômicos assim o permitem. E a psicanálise pode contribuir com seus conhecimentos, porque estuda as motivações inconscientes que povoam a mente do ser humano.

Neste sexto artigo referente ao tema, quero trazer o conceito de reparação, que, assim como o conceito de sublimação, também está relacionado aos impulsos sexuais e agressivos. A reparação é uma maneira de reconstruir aquilo que na nossa imaginação nós danificamos com os nossos desejos ou ódios. Desde bebês temos de lidar com esses sentimentos contraditórios. As relações com as pessoas suscitam muitos sentimentos e nem sempre temos condições de entendê-los, especialmente quando somos crianças e não possuímos, ainda, capacidade mais elaborada para pensar. A relação com a mãe é uma experiência extremamente importante, por ser a primeira pessoa na vida do bebê e pelo grau de dependência que existe ali. O pai entra em cena com a função de dar apoio para a mãe poder exercer a sua maternidade e, também, como representante da cultura, servir de ponte para o filho fazer o seu atravessamento para o mundo. Então, os pais são figuras muito significativas para o ser humano.

Pela grande proximidade que existe entre os pais e o filho, os sentimentos de amor e ódio têm um trânsito constante e por isso a criança ou mesmo o jovem e até o adulto nutrem fantasias de que fizeram algum mal aos pais, que, por causa dessas emoções complexas, causaram estragos a essas pessoas tão importantes. De certa forma, o ser humano passa a vida inteira tentando dominar, melhorar seus sentimentos, corrigi-los, para que não sejam capazes de fazer mal, seja aos pais ou às pessoas que depois farão parte de sua vida, como os irmãos, parentes, amigos, professores, esposas ou maridos. É importante ressaltar que, em grande parte, o mal se produz na mente da pessoa, em fantasia, como diz a psicanálise, ou na imaginação, como se diz, popularmente.

A reparação é, então, uma maneira de reconstruir aquilo que na nossa imaginação nós danificamos com os nossos desejos e ódios. Uma forma de reparar é brincar. A criança quando pinta, desenha, está restituindo as imagens dentro dela. Isso faz muito bem porque com isso ela "faz as pazes" com suas imagens positivas e benéficas. Da mesma maneira, ao brincar de casinha, estará reproduzindo as relações familiares e elaborando os sentimentos que estiverem transitando por ali. Os pais, muitas vezes, ficam tão preocupados com o que a criança irá aprender na escola, mas deveriam deixá-la brincar, porque enquanto ela brinca está fazendo reparações, está tentando dar outros sentidos para seus sentimentos e experiências.

Todos nós sentimos necessidade de saber sobre nossa capacidade construtiva, o quanto ela é maior que a nossa capacidade destrutiva. Sabendo que temos elementos positivos dentro de nós, nos sentimos mais capazes de realizar projetos construtivos, de gerar coisas boas, sejam essas coisas bebês, uma profissão interessante e criativa, ou outras tantas coisas.

E na adolescência o jovem deve transformar o brincar em trabalho, que é um ideal do ego, como já expliquei no segundo artigo dessa série: "Pensando a profissão". Na brincadeira, a criança imita os pais, imita o que ela vê, e vai construindo, assim, a sua capacidade para, mais tarde, fazer o mesmo. Então, a escolha de uma profissão carrega, em si, o desejo de reparação. Por exemplo, um rapaz, cuja família sofreu com problemas sérios e constantes de doença, pode escolher a medicina como maneira de sentir-se capaz de ajudar e, ao mesmo tempo, salvar vidas. Ao tornar-se médico passa a sentir-se menos impotente diante do que aconteceu na sua família. E por meio dessa profissão estaria reparando, inclusive, as possíveis culpas que ele acha que teria em relação a tudo que aconteceu. Outro exemplo, uma moça que tem com a mãe uma relação muito conflituosa, carregada de atritos e rivalidades, pode escolher uma profissão que, na sua fantasia, agradará à mãe, pois assim ela se sentirá reparando as culpas pelas decepções e transtornos que acredita que lhe proporcionou.

Veja bem, uma profissão não tem um único sentido sempre. É preciso verificar o que a pessoa associa, quando pensa numa profissão, quais são as fantasias que ela nutre em relação a isso e que pode ser diferente de outra pessoa que escolhe a mesma coisa. Existem reparações que verdadeiramente contribuem para um enriquecimento pessoal e nesses casos observa-se que houve criatividade e soluções interessantes e saudáveis. Quando ocorre o contrário, quando a reparação não é construtiva ou criativa, o risco é de frustrações e decepções futuras.

Por isso é fundamental refletir mais profundamente sobre as fantasias que estão envolvidas quando pensamos uma profissão, porque as histórias que estão às voltas nos dirão sobre as motivações inconscientes que existem ali.

Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.

 

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