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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Pensando a profissão VII: a família
Por Élide Camargo Signorelli
15/04/2009 | Fonte: Integral.br
Se esse indivíduo vem de uma específica constelação familiar, com específicos pais, que por sua vez constituem um específico casal, com uma específica dinâmica entre seus membros, como cogitar que isso tudo não tenha influência sobre ele? Não quero dizer que a pessoa é resultado exclusivo disso tudo. Afinal, cada ser humano traz em si a sua própria constituição, que é sua e única, e é com ela que ele terá a sua maneira de vivenciar e sentir tudo o que estiver ao seu redor. Mas é importante ter consciência sobre essas influências, para que a pessoa possa utilizá-las de forma positiva na construção da sua identidade, selecionando, criticando, aproveitando o que pode ser aproveitado e descartando o que não lhe interessa.
Mas, sem dúvida, é na família que se estruturarão as bases principais por meio das quais a criança e o jovem irão desenvolver a sua própria identidade. Trata-se de um longo processo em que desde o nascimento a criança será participante de certa estrutura familiar, que funcionará de uma maneira típica, fornecendo-lhe informações objetivas, subjetivas, mensagens claras, subliminares e inconscientes, expectativas e projeções de desejos, e comunicações de todo tipo. Haverá uma linguagem própria entre os membros, um jeito de comunicação que transitará pelo ambiente físico e pelo ambiente emocional também.
Nós, pais, gostamos de pensar e de dizer que não exercemos influência sobre os filhos, que os deixamos livres para decidirem suas vidas. Isso pode ser a mais bela das intenções, mas mesmo que nos controlemos e que cuidemos dessas interferências - e é bom que o façamos - é inevitável que cheguem até o filho informações e mensagens sobre seus pais, sobre seus desejos e formas de pensar, através de uma variedade de expressões. Muitas vezes, o discurso, o diálogo, anunciam um tipo de comunicação, mas as atitudes, que envolvem gestos, olhares, iniciativas, posturas, podem revelar outro tipo de comunicação que pode ser contrária àquela verbal.
A família tem uma ideologia particular que permeia tudo que está à volta. Trata-se de uma instituição que tem seus padrões morais, seus valores, princípios, desejos e expectativas. E o filho vive sob este teto ideológico, que é social, cultural, econômico e emocional. Nessa construção ele não é vítima. Ele também assenta seus "tijolos", coloca suas "telhas" e, metaforicamente, "estende seus tapetes". Essa arquitetura tem também a sua cara.
Esse momento em que o jovem tem de escolher uma profissão é um momento já conturbado pela adolescência, que vira de pernas para o ar a sua vida e suas convicções. Como se não bastasse ter de cuidar das transformações que estão ocorrendo ? como as mudanças físicas e hormonais do corpo, as mudanças psíquicas, a confusão mental em relação a tudo, as perdas inerentes a tudo isso e as exigências internas e externas ? eis que o jovem é pressionado a cumprir com a tarefa de escolher uma identidade ocupacional que está estreitamente ligada à identidade como um todo.
Responder à pergunta: "O que eu quero ser quando crescer?" depende de outra coisa, essencial, nesse processo, que é, antes de mais nada, saber quem se é. Penso que a verdadeira resposta a essa pergunta deveria ser: "Eu quero ser Eu"!, e a partir disso passar a pensar numa profissão: "Eu quero ser engenheiro", "Eu quero ser advogado", "Eu quero ser artista". Mas é condição, sine qua non, de que tem de haver um EU. Sem um EU nada será legítimo e suficientemente seguro e estável.
E os pais não estão à parte desse momento crítico do filho. Sobrepõem-se à crise da adolescência do filho, as suas próprias crises pessoais, que envolvem suas histórias particulares. Tudo entra em revisão, se houver coragem para isso. As escolhas que fizeram em suas vidas, sejam quais forem, entram em questionamento. As conturbações pelas quais o filho passa atingem seus pais e desacomodam aquilo que parecia estar comodamente aquietado. Os pais se confrontam com questões muito próprias e que marcam diferenças entre eles e o filho. Se este possui todas as chances do mundo, não é o que acontece com os pais, que têm à sua frente a morte como algo irreversível e mais próximo. Enfim, os pais também têm que fazer um luto próprio das escolhas que fizeram, daquelas que deixaram de fazer, da função parental que tinham sobre o filho e que precisa ser mudada, do corpo que envelhece e tantas outras perdas.
Há uma violência inerente a isso tudo. O crescimento do filho, o envelhecimento dos pais, é uma experiência que tem sua beleza, claro, mas que também possui uma violência, provocada pelas transformações que a vida exige, naturalmente, e que a sociedade impõe à sua maneira.
A partida do filho para o crescimento faz surgir no espaço existencial um vazio, inevitável, que precisa ser cuidado para que a família construa novos investimentos pessoais. Os pais precisam criar uma "distância" do filho, em termos de relacionamento afetivo, que não seja nem exercer um controle invasivo sobre eles, por um lado, mas que também não descambe em omissão e indiferença.
Em meio a tudo isso, está a tarefa de escolher uma profissão. Como já disse, é algo que depende de uma identidade minimamente desenvolvida, e depende, também, de que o jovem aceite desistir das posições infantis que ocupa na família. Para realizar suas potencialidades como adulto, ele precisa substituir seus primeiros objetos de amor, os pais, por outros do mundo externo, sejam cônjuges, companheiros de trabalho, amigos e outros. Para isso ele precisa formar um ideal que o leve para o contato com o mundo social, e a profissão é um de tantos ideais que poderão ser concebidos ou sonhados.
A profissão, então, carrega em si essa significação, de ser uma ponte que separa o jovem de sua condição infantil e o impulsiona para o mundo adulto. A definição da profissão está direta e indiretamente associada aos pais. A família, assim como todo o resto, possui uma ideologia também em relação às profissões, coisa que é transmitida de várias maneiras, consciente e inconscientemente. Os pais, queiram ou não, nutrem expectativas sobre a profissão do filho e nisso estão contidos desejos íntimos que não foram realizados, ou que foram frustrados, e a esperança, muitas vezes, de que o filho seja a última oportunidade de realizarem sonhos que são seus.
É preciso que o jovem se encoraje a romper com as expectativas da família e que administre a culpa por estar crescendo. Que tente se diferenciar das histórias profissionais dos pais, para que possa encontrar aquela que será a sua história. Que aproveite as opiniões dos pais, não como ordens ou mandatos e sim como representantes da base que a família possui e pode oferecer. E que aceite as mudanças e as perdas como situações humanas, pelas quais todos temos de passar para evoluirmos.
Da parte dos pais, é preciso e desejável que tolerem o crescimento do filho, as perdas e as mudanças inevitáveis. Que o ajudem, desde criança, a ter responsabilidades adequadas e necessárias para que tenha noção sobre a realidade e para que se sinta valorizado e participativo já no ambiente familiar. Que cuidem para que os seus desejos e sonhos não sejam projetados sobre o filho, livrando-o da missão obrigatória de fazer os pais felizes. Que olhem para suas angústias, dúvidas, medos, ciúmes, invejas e outros, como sentimentos que estão ao lado de outros como amor, admiração, mas que precisam de um tratamento cuidadoso para que essa integração resulte em conhecimento e crescimento pessoal.
Que todos, pais e filho, saibam sofrer o sofrimento e sentir o prazer que, afinal, constituem mais uma experiência fundamental da vida.
Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.