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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Coisas que não conseguimos entender
Por Élide Camargo Signorelli
04/05/2009 | Fonte: Integral.br
Estou sendo cruel, eu sei. Mas, eis que entra a Srta. Susan Boyle, uma moça de 47 anos, que se encorajou a mostrar o que sabia fazer. Acontece que a sua aparência física não correspondia aos padrões culturais do momento, esses que, juntando certos traços e características, definem o que é belo e o que é feio. Para esses padrões, Susan Boyle era feia e isso disparou, imediatamente, a reação automática, o riso. Aprendemos que temos de rir do feio. O riso alivia essa tensão de presenciar o feio, que não podemos dominar. Não sabemos o que ele irá revelar... sobre nós. Portanto rimos para que ele se intimide e se cale.
Não havia esperanças sobre Susan. Se ela era feia, isso a condenava às coisas feias, aos feitos feios e dali não se podia esperar nada de bom. Mas veio a surpresa. Ao começar a cantar, Susan revelou seu dom musical. A voz afinadíssima, a música bem escolhida, o timbre exemplar, tudo isso encheu o ambiente e envolveu as pessoas, flagrando-as crentes em suas crenças. Do riso veio o aplauso. Afinal, não se tratava de um palhaço e tampouco de um ET. Susan Boyle era uma artista.
Algumas pessoas ressaltaram nesse feito a coragem da moça em buscar seus sonhos, coisas que muitos de nós, acovardados e acomodados, não o fazemos. Outras permaneceram no encantamento da surpresa. É claro que admirei aquela voz, que me emocionei com a música, mas a reação das pessoas é o meu objeto de reflexão nesse momento.
Há muitas coisas da vida que não conseguimos entender e por isso saímos tentando buscar formas de nos protegermos dos mistérios que tanto nos angustiam. Quando não enlouquecemos, criamos, por exemplo, paradigmas: "O feio só possui e produz coisas feias", "O bonito só possui e produz coisas bonitas" e com eles ficamos seguros, porque isso é matemático, não tem erro. Dois mais dois são quatro, quem duvida? Quem tem coragem de complicar essa equação?
Outras defesas são a arrogância, o riso, a intimidação. São estratégias usadas nesse programa de calouros, inclusive. Mas, quando somos desarmados de nossas armas, ficamos atônitos, abobalhados. Aí o riso e o aplauso têm outro sentido, um misto de alívio, de alegria, diante de um momento em que esses padrões podem cair sem que o mundo desmorone e a gente se desmanche. Então é possível juntar feio e bonito numa só situação? E, por falar nisso, o que é feio e o que é bonito, afinal? São verdades incontestáveis, únicas? Podemos discordar então? Quer dizer que a vida não é essa matemática de "dois mais dois igual a quatro", e eu não preciso me desesperar com isso?
Aparentemente a plateia aplaudiu o bonito. Se Susan tivesse cantado mal, seria vaiada, esculhambada. Sim, porque todos nós só queremos ver e ouvir imagens e sons bonitos. Mas, ao mesmo tempo, chego a pensar - e a desejar - que aquele aplauso conteve também um agradecimento a Susan, por ter ela quebrado essa matemática que tanto nos reduz, embora busquemos nesta uma proteção contra nossas dificuldades para entender a vida.
Se não aceitamos o feio, o deformado, o sem-forma definida, o incompleto, ou simplesmente aquilo que é diferente de nós, só nos resta ficar fugindo de tudo que ameaça desvelar matemáticas incompreensíveis e inaceitáveis.
A vida, fora do papel e da calculadora, nunca será "dois mais dois igual a quatro". O que usamos, então, para calcular a vida? Não calculemos, aplaudamos!
Élide Camargo Signorelli , psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.