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Artigos - Psicologia

Pensando a profissão VI: a idealização
Por Élide Camargo Signorelli
15/04/2009 | Fonte: Integral.br

No Vocabulário da Psicanálise, de Laplanche e Pontalis, o conceito de idealização se apresenta como o processo psíquico pelo qual as qualidades e o valor do objeto são levados à perfeição.

Facilmente detectamos a presença da idealização em vários momentos da nossa vida. A paixão revela, claramente, esse conceito. A pessoa apaixonada está sob o domínio de certo estado emocional em que o objeto da paixão está supervalorizado em seus atributos. Na realidade, a idealização é uma projeção de valores ideais da pessoa "apaixonada", resultado dos modelos ideais da sua pré-história. Pré-história, porque esses valores ideais remetem aos primeiros modelos de relação do ser humano, que são os pais. E são modelos carregados de projeções que fazem parte do "arsenal fantasmático" de cada um. De forma bem simplista, cada um de nós enxerga o objeto ? sejam os pais, outras pessoas, um quadro, um acontecimento ? com olhos próprios, a partir de algo muito particular, dependendo dos "fantasmas" que trazemos dentro de nós. Diante de uma mesma maçã, por exemplo, uma pessoa pode enxergá-la como suculenta e outra, como uma fruta fria. As diferentes leituras que se podem fazer diante de um mesmo alvo dependem da estrutura mental da pessoa, mais melancólica, mais narcísica, ou mais idealizadora.

Na vida amorosa, o ser amado é enaltecido, engrandecido pela pessoa apaixonada. Nos terrenos das profissões o mesmo acontece. Toda profissão traz em seu bojo alguma idealização. Mas, aqui, trata-se de projeções fantasiosas que se derramam sobre o objeto amado - ou sobre a profissão "apaixonante" ? e que tem a ver com a própria pessoa que projeta. Ela coloca sobre o outro - ou, no caso, na profissão ? os seus próprios ideais. Por isso, a idealização é fortemente marcada pelo narcisismo, porque o objeto amado representa, então, a própria pessoa apaixonada.

Em um dos artigos da série PENSANDO A PROFISSÃO, falo, justamente, sobre o ideal do ego como sendo alvos que precisamos criar como condição para aceitarmos desistir de nossa condição infantil. Esses alvos podem estar mais - ou menos - carregados de idealização dependendo do quanto trazem de aspectos narcísicos do próprio indivíduo. Quanto mais narcísico, mais infantil é. Quanto mais idealizado, também.

Na psicanálise, Melanie Klein acredita na função defensiva da idealização. Nesse caso, a pessoa afasta os seus próprios aspectos destrutivos, negando-os, e deixando o objeto amado provido somente das qualidades e dos aspectos bons. Por isso torna-se idealizado. O namorado passa a ser perfeito. Aquela profissão é tão maravilhosa que tornará a pessoa famosa e inevitavelmente bem-sucedida. Não basta ser bom, tem de ser ótimo! Aqui, a dificuldade é com a realidade das coisas, que traz as contradições existentes nos sentimentos e nos desejos. A ideia de se ter um "mar de rosas" é extremamente ilusória e idealizada e representa essa dificuldade de suportar uma realidade que, ao contrário, denuncia a existência constante de frustrações na vida.

O adolescente é alguém que idealiza muito porque ele ainda não consegue integrar tão bem os elementos positivos e destrutivos do seu ser. Então ele radicaliza, nega seus limites, para não ter de lidar com o medo de perder a esperança, e cair numa desilusão desalentadora e que o impediria de prosseguir na vida. E também para suportar desistir da condição infantil, criando alvos "idealizados" que o empurrem para frente. Por isso ele precisa se apaixonar por alguém maravilhoso e perfeito, assim como imaginar que será "o melhor arquiteto que existe na cidade", por exemplo, pois só dessa maneira poderá encorajar-se a aceitar crescer. Existe nisso, implicitamente, a fantasia de voltar a estar com a mãe, como se fossem um só corpo. É essa a verdadeira condição perfeita que o apaixonado deseja reviver, quando ama alguém ou quando escolhe uma profissão, com esse nível exagerado de expectativas.

Porém, será com o senso de realidade, com uma maior percepção da realidade interna e externa, e uma maior consciência sobre seus limites pessoais, assim como os limites da vida, que o adolescente deverá contar para crescer. Portanto, quanto maior for a capacidade para tolerar as frustrações e aceitar que as pessoas, as profissões, as relações, os planos, são constituídos de elementos positivos e negativos, de aspectos bons e maus, mais madura a pessoa estará e, consequentemente, necessitará menos de idealizações. O bom já será suficiente, não precisará do ótimo.

Mais especificamente em relação à profissão, objeto de interesse específico deste artigo, é fundamental que o jovem faça suas pesquisas para explorar, o máximo possível, o universo das profissões e os elementos que as compõem, porque conhecer a realidade da profissão ajuda a desmistificar e a torná-la mais real e humana. Entrevistar pessoas sobre suas profissões é muito interessante, porque a profissão não existe sem o profissional. Ou melhor, é o profissional que faz a profissão, ela não se faz por si mesma. Esse caráter pessoal do profissional revela a subjetividade que está por trás de cada profissão, aspecto oportuno, pois abre para muitas possibilidades de "ser" dentro de uma determinada escolha.

Uma escolha madura tem de integrar os dois aspectos: o ideal e a realidade. Alguma idealização é natural no início de cada relação, mas ela tem de dar lugar, gradativamente, a uma condição mais realista, que integre os elementos positivos e negativos que existirem.

Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.

 

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