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Artigos - Psicologia

Para onde minhas pernas poderão me levar?
Por Élide Camargo Signorelli
14/05/2009 | Fonte: Integral.br

Assim que me dei conta de que meu corpo e minha saúde estavam em minhas mãos, comecei a cuidar disso.

Fui criada com açúcar, pão feito em casa, muita massa e muito bolo. Hoje, procuro seguir uma dieta que integre os elementos essenciais para uma alimentação equilibrada, mas não sou radical. Se me aparecerem com um bolo, eu não recuso. A vida pode e deve ser boa. O exercício físico não era atividade com identidade própria, como acontece hoje. Eu andava muito porque era natural andar. Sempre havia um destino: ir ao centro da cidade, visitar minha avó, fazer compras, ir ao banco, e o exercício acontecia por aí. Hoje, muitos de nós ficam andando em círculos, numa mesma quadra, contando o número de voltas que queimará certo número de calorias. O automóvel não era, ainda, um instrumento imprescindível para a vida. Então, eu me conduzia aos lugares com as minhas próprias pernas.

Estou falando do século passado, mas também não de tempo tão longínquo. Estamos aí, mais ou menos em 1983, quando as primeiras academias de ginástica começaram a aparecer em Campinas. Já existia essa prática de exercícios, mas ainda era realizada nos clubes da cidade. Eu, no auge dos meus 26 anos, já tinha minha experiência no assunto, pois sempre gostei de cuidar do corpo.

Assim que descobri uma academia, me inscrevi e, desde então, nunca mais parei. Não busco o corpo perfeito, não estou atrás de músculos evidenciados, mas faço um trabalho para fortalecimento e alguma definição da minha musculatura. Mas, havia um porém nisso tudo, eu nunca consegui correr. As aulas eram sempre precedidas por um aquecimento em que tínhamos de correr por uns dez minutos. Eu, bem intencionada, começava a correr, mas minhas pernas não ajudavam ou minha capacidade respiratória parecia insuficiente. E isso acabou virando um tabu para mim. Parei de tentar, inclusive, já que minha aparente fraqueza me deixava humilhada perto de meus colegas tão capazes.

Passados uns bons anos, entre intervalos, derrapadas, abandonos e, ao mesmo tempo, muita persistência, mantenho minha rotina de exercícios e, nos dias em que faço caminhada, comecei a correr, desafiando o meu tabu. Eis que, para meu espanto, estou correndo, ainda não o tempo todo, de uma hora, mas sem dúvida quebrando meus pobres recordes. Essa descoberta, ao mesmo tempo, aumenta a minha confiança e produz em mim uma sensação crescente de ser capaz de fazer aquilo e de, ainda, gostar!

Conversando com uma professora de ginástica, ainda disse a ela: "Como isso é possível? Quando eu tinha 26 anos, tão jovem, não tinha capacidade para correr. Agora, com 52 anos, como posso ser mais capaz? Pela lógica biológica, não deveria ser o contrário?". Ela respondeu: "Ah, é a maturidade!".

Essa ideia de maturidade me fez pensar que correr, para mim, podia estar associado a "me levar para algum lugar, pelas minhas próprias pernas". No artigo Segura, peão!, que está no menu de Psicologia do site, eu trouxe o mito de Platão sobre o Carro Alado, em que a ideia é a de que a alma humana é como uma parelha puxada por dois cavalos. Um é mau e o outro, bom. Este, às vezes, é influenciado pelo outro, que é muito forte. Os dois animais são puxados pelo auriga, ou cocheiro, que controla as rédeas. Freud usou essa metáfora para pensar no psiquismo humano como um aparelho formado por impulsos antagônicos que precisam ser dominados para que a mente se mantenha num razoável equilíbrio. De forma sintetizada, os cavalos representariam os impulsos, os sexuais e os agressivos, que ameaçam levar a mente a pensamentos, fantasias ou ações desconhecidas, insensatas, radicais. Cabe-nos, portanto, o constante exercício de providenciar recursos para que a nossa mente-carruagem siga seu caminho de forma civilizada e saudável.

O que pensava eu, aos 26 anos, sobre a minha "carruagem"? Correr poderia significar para mim, naquela época, soltar "meus cavalos", desenfreadamente e sem destino. Além disso, penso que me assustava pensar que eu era, ao mesmo tempo, os cavalos, a charrete e o cocheiro. Então, tudo aquilo dependia de mim? Era minha responsabilidade cuidar dos meus impulsos e do meu destino? Então, por via das dúvidas, eu não corria. Pelo menos meus cavalos ficavam "sob rédea curta".

Nesse sentido, o vigor da juventude não era o único e óbvio elemento do qual dependeria minha condição para correr. Eu precisava sentir-me mais segura na condição de sujeito da minha vida. Precisava estar mais tranquila em relação ao domínio sobre meus impulsos.

Agora eu posso, então, correr, mais certa de que os cavalos, ora podem disparar, ora empacar, ou trotar, mas sou eu que estou à frente disso tudo. Isso é maturidade.

Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.

 

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