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Artigos - Psicologia

Ser mãe é padecer num paraíso - Sofrimento e gozo
Por Élide Camargo Signorelli
14/05/2009 | Fonte: Integral.br

Buscando inspiração sobre a maternidade, saltou da minha mente a óbvia frase "ser mãe é padecer num paraíso". Frase já gasta pelo uso demasiado, mas que ainda está guardada num canto do coração de toda mãe. Para aquelas menos despudoradas, ela é proclamada com um prazer com tom masoquista. Curiosa sobre a origem desse clichê,fui pesquisar e encontrei o poema que contém essa frase. Trata-se de um soneto, "A Mãe", de Henrique Maximiano Coelho Neto, escritor, político e professor, nascido em 1864 em Caxias, no Brasil. Foi um escritor com certa notoriedade, que por muitos anos foi o mais lido do Brasil.

Vou transcrever o poema:

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra / o coração! Ser mãe é terno alheio / lábio que suga, o pedestal do seio / onde a vida, onde o amor,cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra/ sobre um berço dormindo! É ser anseio / é ser temeridade, é ser receio / é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho / espelho em que se mira afortunada / Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso! / ser mãe é ter um mundo e não ter nada! / Ser mãe é padecer num paraíso!

Fiquei me perguntando: "Mas que paraíso é esse de que o autor fala?". Afinal, quem está no paraíso? Nós, adultos, é que não. A realidade está longe de ser um paraíso, pois nos põe à prova, constantemente, no enfrentamento das decepções, frustrações, cumprimentos, renúncias, essas coisas todas que nos são exigidas em nome do crescimento, da maturidade e de um lugar no mundo civilizado. Mas, todo o soneto nos revela sobre o tal paraíso. "Todo o bem que a mãe goza é bem do filho, espelho em que se mira afortunada" é apenas um exemplo.

É verdade que a mãe, especialmente, no primeiro ano do nascimento de seu filho, tem que dedicar uma atenção tão especial que o psicanalista inglês Donald Winnicott chamou de "preocupação materno-primária". Mais especificamente nos três primeiros meses de vida do seu bebê, a nova situação espera que a mãe providencie tal estado emocional que proporcione ao filho a sensação, que é ilusória, de que ele é o criador do mundo (mais diretamente, da mãe). Isso confere ao bebê a confiança e a crença que serão base para o seu desenvolvimento, mas que, naquele momento de sua vida, tão frágil que está, necessita tanto dessa condição. A mãe, então, nesse período deveria poder se entregar, esquecendo-se, praticamente, do mundo externo, e entrando num estado de fusão com seu filho, para se tornar capaz de traduzir e satisfazer as necessidades do filho.

É nesse sentido que entendo quando se fala do padecimento da mãe. Ela padece porque tem de renunciar à sua vida como um todo, para poder viver esse idílio com seu bebê. E é nesse sentido, também, que o paraíso se estabelece, nessa relação suficientemente boa - como dizia Winnicott - e que satisfaz os desejos e as necessidades tão primitivos que o bebê, nesse momento, apresenta. Mas é um estado que deve ceder, gradativamente, para que a mãe vá resgatando as outras relações da sua vida, já que o bebê não mais necessita, mais velho que está, de uma atenção tão intensa e tampouco a mãe teria condições de permanecer nesse grau de doação por mais tempo, porque aí sim se tornaria masoquista.

O paraíso é, então, essa relação, com essa intensidade de doação, que a mãe proporciona ao filho, ao menos nos primórdios de sua vida, mas, como diz o soneto, um bem que ela também goza, naquilo que oferece ao bebê, ao se reencontrar com o que um dia perdeu ao crescer, o seu próprio paraíso com sua mãe. O que ela providencia ao filho é, ao mesmo tempo, a possibilidade de reaver o seu paraíso/narcisismo renunciado.

FELIZ DIA DAS MÃES!

Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.

 

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