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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Pensando a profissão II - As perguntas
Por Élide Camargo Signorelli
11/03/2009 | Fonte: Integral.br
Como venho tentando dizer são muitos os elementos envolvidos nesse momento em que se tem de escolher uma profissão. Portanto, é bastante natural que apareçam conflitos, mesmo porque estes fazem parte da vida. Uma escolha madura, então, depende da elaboração dos conflitos e não de sua negação. Isso envolve um trabalho interno e externo. Interno porque implica integrar elementos de toda uma vida e que tem relação com esse momento. Inclui levantar questões sobre sentimentos, angústias, interesses, desejos presentes quando se está imaginando uma profissão. Inclui, ainda, entender, minimamente sobre as identificações que estão envolvidas, bem como promover um balanço sobre perdas e ganhos. E externo porque exige uma exploração e averiguação da realidade, para que se veja quais seriam os compromissos possíveis entre as duas coisas, entre o que o indivíduo observa sobre si mesmo e o que existe de realidade para absorvê-lo.
Rosane Levenfus diz que para se fazer uma escolha ajustada é preciso que haja capacidade de adaptação, interpretação e juízo da realidade, discriminação, hierarquização dos objetos e, em especial, capacidade para reconhecer a ambiguidade e tolerar a ambivalência, presente nas diversas relações que fazemos.
Segundo Rodolfo Bohoslavsky, o momento de escolha da ocupação é o momento em que o jovem deve elaborar, antecipadamente, este comportamento ligado ao trabalho, como se estivesse ensaiando para isso. O autor destaca algumas perguntas que a seu ver subjazem a esse processo de elaboração:
O comportamento de trabalho supõe um PARA QUE. É uma questão que remete à criação de um sentido que vem para reparar nossos impulsos destrutivos. Os ódios que sentimos - ou que temos dificuldade de sentir, mas que estão dentro de nós - são sentimentos humanos que estão presentes nas relações, em todas elas. E tememos muito que eles sejam capazes de provocar mal, ou danos, principalmente às pessoas que amamos, ou às situações que construímos durante a vida. Aquilo que pensamos que destruímos, seja em fantasia ou na imaginação, então, precisa ser reparado, reconstruído dentro de nossa mente, para que acreditemos que possuímos elementos bons e de vida, para continuarmos nossa vida. E é a isso que se refere a reparação. O PARA QUE, num sentido mais amplo, está a serviço dela.
Outra questão que deve estar presente é o COMO, de que modo o jovem quer fazer o que escolheu fazer. Que espécie de vínculo o trabalhador terá com o seu objeto de interesse?
Outro aspecto supõe um POR QUE, que está associado também à reparação e esclarece sobre o sentido que move o desejo de trabalhar em determinada área profissional.
Como comportamento, o trabalho supõe um QUEM, que tem a ver com o sujeito que escolhe aquela profissão. É um sujeito que está em relação com outros, que possui várias identificações, e que representa uma identidade particular. É ainda um sujeito que tem uma história e, de alguma maneira, carrega um projeto pessoal. QUEM será esse sujeito? E ao mesmo tempo em que escolhe quem ele será, o jovem também estará escolhendo aquilo que ele deixa de ser e tudo que está ligado a essas outras identidades. Por isso é que a escolha envolve, também, a elaboração de lutos.
O comportamento de trabalho supõe, ainda, um QUANDO e ONDE. Há um aspecto temporal, aí, que se refere ao momento e que, ao mesmo tempo, representa o passado e o futuro. Também está associado ao contexto social que envolve o jovem. O ONDE se refere à instituição educacional que irá preparar o jovem para alcançar a profissão escolhida.
Mesmo que não seja possível responder a essas perguntas com convicção - e acredito até que não seja o caso, mesmo, de muita convicção - penso que o mais importante é que a pessoa possa dar voz às perguntas e explorá-las ao máximo, pois serão os pilares iniciais da construção que estará sendo empreendida.
Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.