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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Ciúme
Por Élide Camargo Signorelli
26/05/2009 | Fonte: Integral.br
1. Inquietação mental causada por suspeita ou receio de rivalidade no amor ou em outra aspiração.
2. Vigilância ansiosa ou suspeitosa nascida dessa inquietação.
3. Ressentimento invejoso contra um rival ou suposto rival mais eficiente ou mais bem-sucedido, ou contra o possessor de uma vantagem material ou intelectual cobiçada.
4. Arbusto asclepiadáceo, denominado também capulo-de-seda, flor-de-seda, bombardeira.
Muita gente confunde ciúme com inveja, porque talvez ambos se refiram à posse de algo ou de alguém e, consequentemente, à ameaça de perda dessa posse. Duas pessoas podem estar numa relação em que se sentem donas do outro, como se este fosse uma criação sua. Lembro-me bem de um casal de adolescentes que viviam tentando anular a espontaneidade um do outro, recusando-se, de forma radical, a aceitar que cada um deles pudesse ter vida além da relação. Se um abraçava um amigo isso era motivo para longas brigas, que geravam um constante sofrimento e pressão para ambos. Ali parecia haver um anseio de exclusividade, de vivência de um espaço hermético onde nada existiria que pudesse ferir. Paradoxalmente, qualquer coisa poderia ferir ou ameaçar. Forte e frágil ao mesmo tempo. E o ciúme era o sentimento-sentinela, que vigiava "a presa" para proteger contra os perigos externos.
Assistindo a um programa de rádio em que um psicólogo respondia a perguntas dos ouvintes, lembro-me de um senhor, naquela época com 80 anos, que falou sobre suas aflições, sobre o ciúme que sentia de sua namorada e sobre seu desejo de resolver aquele problema que trazia consequências ruins para seu relacionamento. Oitenta anos! Enfim, a idade cronológica não é parâmetro para determinar a existência ou não do ciúme. O que está em questão é a aceitação, madura, sobre a alteridade.
Dentre as várias interpretações para o ciúme, quero destacar, aqui, o que poderia ser herdeiro de uma vivência muito primitiva, dos primórdios da vida, no primeiro ano após o nascimento. A mãe, na sua função de cuidar do bebê, tem de proporcionar a ele a ilusão de que ele é o criador do seu mundo. A mãe é, assim, sua criatura, parte sua. Tudo existe a partir do seu desejo. O bebê está onipotente, crente de sua potência sobre as coisas à sua volta. Tal estado é necessário para que ele possa suportar existir, ainda sem condições de entender o que significa essa existência. E só paulatinamente o bebê poderá e deverá começar a perceber suas reais condições. Não se apresenta o mundo para um bebê, assim de uma vez só, de forma nua e crua. É preciso iludi-lo para desiludi-lo em seguida. E a desilusão lhe mostrará que ele não é o criador do seu pequeno universo. Constatará que a mãe é mais do que um objeto que existia tão somente para servi-lo. Há uma ruptura em que as existências se separam para constituírem-se como únicas e autônomas. Aceitar isso é condição imprescindível para que possamos nos entender como sujeitos da nossa história e livres para escolhermos os infinitos caminhos que se nos aparecem.
Penso que o ciúme, então, é derivado de vestígios daquele tempo de ilusão. Encontrar-se com o outro traz a nova chance de resgatar aquela condição paradisíaca. Agarrados ao outro, estaríamos revivendo aquele estado perdido de fusão, em que dois eram um só. A relação com o outro desafia, na verdade, a nossa capacidade de aceitação da realidade. É mais uma oportunidade de revisar momentos de nossa história e de reelaborar os sentimentos que inevitavelmente estão presentes nessa experiência: desamparo, medo, raiva e dor.
No encontro com o outro, momento ao mesmo tempo cheio de vida, está presente um luto pela ilusão de posse.
Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.