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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Impulsividade
Por Élide Camargo Signorelli
08/06/2009 | Fonte: Integral.br
O garoto se isolava no banheiro e lá ficava chupando o dedo. Era um momento em que ele ficava totalmente isolado do mundo externo. Na idade em que se encontrava o garoto, esse ato já tinha um significado autístico, mas era uma defesa, provavelmente, contra uma grande frustração e decepção em relação à família. Pai e mãe eram pessoas muito egocêntricas, com uma falha no desenvolvimento da identidade. Ambos não possuíam uma concepção mais autêntica do que é ser humano e um ser humano adulto. Traziam imagens de celebridades como referências as quais deveriam seguir. E como isso não sustentava verdadeiramente suas subjetividades, eles se apresentavam como pessoas com enormes vazios existenciais. Isso se refletia em Justin, o filho, que se sentia extremamente desamparado, sem poder contar com uma presença profunda dos pais.
Winnicott, psicanalista inglês, fala de um "eu privado" que não se comunica e ao mesmo tempo deseja comunicar-se e ser encontrado. É como um jogo de esconder em que "é uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser achado".
Unido a esse quadro, é interessante observar a reação das pessoas em volta de Justin. O ato de chupar o dedo incomodava todos, cada um à sua maneira. O pai, identificado com aquele ato regressivo do filho, agia com brutalidade tentando coibi-lo, simplesmente, através de repreensões e pressões. É o que comumente acontece com crianças que roem as unhas ou desenvolvem tiques. Os adultos ficam angustiados e tentam impedir o ato, reprimindo, castigando ou ameaçando. São reações inadequadas que empurram para dentro da criança aquilo que ela está comunicando, suas ansiedades e conflitos.
Voltando ao filme, vemos que a escola, por sua vez, também se apressa em diagnosticar a dificuldade do menino em se concentrar, como TDAH, déficit de atenção e hiperatividade. É prescrito, então, Ritalina, um medicamento usado para esses casos. Trata-se de um estimulante do sistema nervoso central, que reduz o comportamento impulsivo e facilita a concentração no trabalho. E, assim, a escola resolve o seu problema, ao encobrir, através da pílula mágica, a angústia que aquele menino revelava, e que não se reduzia de forma alguma a um problema de atenção e concentração, sinais que estavam presentes. Manter atenção a coisas do mundo externo, sejam elas pessoas, disciplinas escolares ou outras, é algo que fica prejudicado quando alguém está às voltas com conflitos, temores ou depressões. Tratar isso como um simples problema de atenção, ou então como hiperatividade, pode ser um erro grave e injusto.
O personagem, perdido em meio a tanta incompreensão e pressão, tenta buscar, ao seu modo, alívio para tanta dor. Ao mesmo tempo, na turbulência da adolescência, ele busca suas experiências tentando contato com meninas, como uma forma de arrancar-se dessa necessidade autística de chupar o dedo.
Enfim, o contato com o outro, é experiência essencial para o ser humano, pois é através dela que ele se constitui como tal. Em toda relação, desde a que acontece com a mãe, até todas as outras que se estabelecem durante a vida, há que se buscar um espaço suficiente para contato e separação entre a dupla. Trata-se de saber respeitar uma condição de privacidade e isolamento essenciais a todo indivíduo, mas sem que isso incorra em ausência e distanciamento ou desinteresse.
Esse filme é uma indicação interessante para a reflexão sobre as relações humanas.
Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.