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Artigos - Psicologia

Em vinte minutos tudo pode mudar
Por Élide Camargo Signorelli
21/08/2009 | Fonte: Integral.br

Gosto de ouvir rádio enquanto estou no carro, dirigindo. Conforme meu estado de espírito, vou alternando entre emissoras que transmitem músicas e outras cuja estrutura é formada por noticiários, jornalismo e reportagens. Também gosto do silêncio e da oportunidade de ouvir somente os meus pensamentos.

Percebe-se que cada emissora possui uma estrutura formal, com um estilo próprio, construídos a partir de diversos elementos, evidentemente auditivos e sonoros. São vozes, com vários timbres, alguns irritantes para o meu às vezes intransigente ouvido musical. Vozes com modulações, ritmos, respirações, palavras, pausas, expressões, comentários, tudo compõe um espaço que vai envolvendo o ouvinte que, por sua vez, mais ou menos atento, vai captando, consciente ou inconscientemente, as informações manifestas e as latentes, aquelas declaradas e outras subliminares contidas no programa. Acredito que para personalizar, de forma estantânea, sua marca e identidade cada emissora cria seus bordões que, repetidos continuamente, vão brigando por espaço na mídia.

Refiro-me aqui ao "Em vinte minutos tudo pode mudar”. Sempre que ouço essa chamada, fico incomodada. Experimento um mal-estar que vou tentar explorar. Em meio a divagações, lembro-me do filme alemão Corra, Lola, Corra, direção de Tom Tykwer, 1998. Parece até que a emissora nele se inspirou para criar tal bordão. Para quem não assistiu, Corra, Lola, Corra trabalha essencialmente com o tempo. Este é o personagem principal. Por observação própria e por referências das análises desenvolvidas a respeito do filme, ficamos sabendo dos diversos elementos que, de forma inteligente e criativa, vão propagando o tema do tempo. No início do filme, por exemplo, já há a primeira notícia sobre isso. Uma carranca, que é um pêndulo de relógio, se impõe, anunciando o elemento principal. E até o fim detalhes vão sustentando essa ideia: sons de tique-taques, relógios, a trilha sonora, a letra repetitiva das músicas e, mais diretamente, a própria ideia de prazo, presente na história, marcam o tempo.

Lola corre em toda a narrativa. Ela precisa salvar o namorado de uma encrenca em que se meteu. Ele tem de recuperar um dinheiro para a organização criminosa da qual faz parte, e como está sob ameaça de morte ele planeja assaltar um supermercado. E então estabelece que em vinte minutos dará início ao assalto. Sua namorada, aflita com a situação, tem, portanto, esse prazo para chegar até ele com a solução para o problema. A narrativa em si é simples. O que torna o filme muito criativo é, também, sua estrutura ternária. A mesma narrativa é repetida por três vezes. Ou seja, dá-se a primeira vez e em seguida toda a trama se repete, só que com mínimas variações de tempo, detalhe que provoca alterações significativas nos acontecimentos. Na terceira, outras pequenas variações também dão ao futuro outro desenvolvimento. E tais variações se referem ao tempo. A ideia é mostrar o quanto a realidade é uma condição efêmera, instável e infinita, a partir de mínimas variações de tempo, por exemplo, que então vão provocando reações e comportamentos também infinitos, como uma eterna espiral. Sobre o filme há muito que observar e pensar, programa para assistir mais de uma vez, dada sua riqueza.

Para os fins desse rápido artigo, quero voltar à emissora que proclama que "Em vinte minutos tudo pode mudar". É claro que em vinte minutos tudo pode mudar. Quem acha que não é assim, que o tempo é elemento estático e que a realidade é uma só e absoluta, está completamente iludido por um estado mental parcial, rígido e imaturo.

Se quiser ser bem chata e detalhista, eu posso responder à emissora: "Em vinte minutos não, em um segundo tudo pode mudar!". O problema, para mim, não está na revelação, óbvia e ululante. O que me incomoda é o fato de ela ser veiculada várias vezes durante toda a programação da rádio. Não se trata somente de marcar o bordão para isto entrar na mente das pessoas até estas pensarem: "Ah, esta é a rádio que fica de olho na rotatividade das notícias...". Penso que também não se trata de vencer a outra emissora que transmite as notícias de meia em meia hora. Por que a emissora escolheu esse bordão e não qualquer outro é o que me interessa.

O tempo é um elemento muito importante na nossa realidade, as ciências e a Filosofia que o digam, que o estudam incessantemente.

Está na boca de todos nós, em qualquer conversa de esquina, um tom de estranhamento e angústia: "Nossa, o tempo está passando muito rápido!". A pós-modernidade traz um tempo com características que marcam o que se pretende, hoje, do ser humano e de suas ações e relações: que sejam ágeis, passageiros, superficiais e efêmeros. O andamento do compasso não é adágio, e sim presto, e funciona como um metrônomo – aparelho usado na música, para marcar o compasso. Não se pode sair daquele andamento, a não ser que seja para ser mais rápido. Assim como podemos ficar com a ilusão de que fazemos muitas e muitas coisas, a sensação final é aquela da ampulheta esvaziando os últimos e preciosos grãos de areia que nos restam e, o que é pior, de forma frenética.

A mídia, a propaganda, o sistema social, econômico, cultural, todos os setores da sociedade vão contribuindo para armar-nos essa arapuca: "Seja rápido, não perca tempo, tempo é dinheiro, curta muito porque vai acabar, você está perdendo, decida logo, corra, Lola, corra, seu prazo acabou...".

Quando ouço a voz, na rádio, dizendo "Em vinte minutos tudo pode mudar", tenho vontade de me rebelar e gritar bem alto: "E será em vinte segundos que desligarei esta emissora!". Quem sabe assim, me iludo um pouco, me sentindo menos refém dessa manipulação!

Élide Camargo Signorelli, Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

 

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