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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Shopping doce Shopping
Por Élide Camargo Signorelli
23/08/2009 | Fonte: integral.br
Quando a mulher conquista seu lugar no mercado de trabalho, a família, tal como funcionava, precisa se adaptar para acomodar as mudanças. Ela, pilar da vida doméstica e da função de acompanhar e prover os filhos, a satisfação das necessidades físicas e afetivas, desloca-se, em grande parte, para fora, e isso provoca reflexos marcantes e significativos em toda a sociedade. A família adota, então, um novo membro para substituir, pelo menos em parte, o lugar deixado pela mãe. Quando não se pode contar com a avó, a babá ou a empregada doméstica tornam-se figuras fundamentais para se garantir, ainda, a manutenção do espaço concreto da casa. É uma forma de fornecer à criança a possibilidade de vivenciar um ambiente familiar, com os espaços reservados e reconhecidos de cada um, experiência que colabora, em muito, para o aprendizado e a distinção dos lugares e papéis de cada membro do núcleo familiar, e depois, no mundo adulto, no meio social. Uma alternativa é a escola maternal, que está cada vez mais instrumentalizada para receber a criança. Lá ela passa grande parte do dia e, desde muito cedo, vê-se obrigada a uma socialização que invade e desrespeita, muitas vezes, suas condições e capacidades emocionais. Essa passagem das figuras parentais originais para todas as outras "estrangeiras", pertencentes ao mundo extrafamiliar, acontece cada vez mais cedo e podemos pensar que os laços afetivos, construídos a partir dessas relações, já não são os mesmos laços. A textura, os nós e a maneira de atá-los vêm se modificando.
A casa, estrutura feita de tijolos, alicerce, telhado, com sua composição estética e funcional, é que, ao acolher um grupo de pessoas, torna-se cenário para a construção das relações pessoais, valores, afetos. Trata-se de um espaço simbólico, também, pois representa os objetos emocionais que compõem a mente da pessoa.
Para auxiliar no processo de diagnóstico de crianças, o psicanalista, muitas vezes, se utiliza de um teste, dito projetivo, que se chama HTP, House, Tree, Persons. Pede-se à criança que desenhe uma casa, uma árvore e uma pessoa dos dois sexos. Esses três elementos possuem signos que representam a própria pessoa. Estudos foram feitos para captar, de forma minuciosa e ampla, ao mesmo tempo, os aspectos que vão fornecendo notícias sobre as fantasias e imagens internas que o sujeito traz consigo, a respeito de si mesmo e das pessoas que lhe são mais importantes como figuras primárias em sua vida. E a casa reflete, então, a forma como a pessoa se vê e as suas relações afetivas. Então, vemos casas-fachada, casas-sobrado, casas vazias, fechadas ou abertas, isoladas ou rodeadas de outras, grandes ou pequenas, acolhedoras ou bizarras, alegres ou tristes. Uma infinidade de casas, infinidade de mentes, infinidade de construções mentais.
Dei toda essa volta para chegar ao shopping. Esses dias ouvi, no rádio, uma reportagem sobre a nova armadilha, estrategicamente elaborada pelos especuladores do mundo do consumo. Em shoppings de São Paulo, já existe um banheiro feminino, especialmente projetado para atrair adolescentes. Trata-se de um espaço-camarim. Há grandes espelhos com lâmpadas em volta, poltronas, tapetes, tudo providenciado para que as jovens se arrumem ali. Ou seja, o programa começa já no preparo para a "festa". Quem tem adolescentes meninas sabe contar como é esse momento de arrumação. As amigas se telefonam para combinarem a indumentária. Se uma vai de sandália, todas têm de ir. É preciso se certificar se não haverá uma diferença gritante que exponha a garota à ameaça de aparecer com sua subjetividade. Há muita falação, gritos, gemidos, exclamações, de lá e de cá, pelo fio do telefone. Secadores, chapinhas, perfumes, roupas e muita maquiagem espalhados no espaço doméstico. Espinhas encobertas por camadas de base e pó compacto. Quando se acredita que o programa não mais acontecerá e que se resumirá a essas horas, do banheiro para o quarto e do quarto para o banheiro, elas avisam: "Estamos prontas!".
A família acompanha, de perto ou de longe, esse movimento frenético e excitado. Há excitação, mas também muita insegurança. Desejo e medo se misturam nesse ensaio para buscarem o mundo que está para além dos portões da casa-família, do lar-doce-lar.
A indústria do consumo não se cansa de pensar em maneiras de capturar os consumidores, e os jovens são os mais atraentes, pois são mais facilmente fascinados e hipnotizados por todos os recursos que puderem lhes trazer a ilusão de serem alguém e, de preferência, alguém bonito, perfeito, rico e famoso. O banheiro-camarim se adequa à ideia de que a vida tem de ser um espetáculo do começo ao fim. O ser humano se mistura ao artista, à celebridade. E como é mesmo complicado ser apenas um ser, humano, com suas mediocridades e imperfeições, tornar-se famoso o salva desse engodo difícil de engolir. Além disso, o shopping rouba mais um espaço da casa-família. Esse espaço, privado, perde para este outro, público. Não que a casa seja o abrigo eterno. Ao contrário, deve apenas servir, temporariamente, como alicerce das providências básicas necessárias para a inserção ao abrigo maior, o mundo social.
Qual é esse tempo suficiente? Sei que para fazer um bolo precisa-se de aproximadamente 20 minutos de cozimento. E de quanto tempo se necessita para a formação dos valores e elementos básicos? De quanto tempo, no forno-casa, um ser humano precisa para então sair para o mundo?
Não tenho a resposta, tenho apenas o olhar atento e crítico, e a fantasia de que daqui um tempo, quando se fizerem testes HTP em crianças, aparecerá uma nova casa, a casa-shopping.
Élide Camargo Signorelli, Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.