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Artigos - Psicologia

Bullying
Por Élide Camargo Signorelli
23/08/2009 | Fonte: integral.br

Em pleno aniversário em casa de amigos, houve um momento de agitação das crianças, e aí fico sabendo que Fulano, um garoto de uns 10 anos, estava chorando muito. Parece que alguém o havia insultado e ele, ofendido, se retirou da brincadeira. Fui convocada para saber exatamente o que havia acontecido. Ao me aproximar vi que o garoto estava sentado no chão, num canto da sala. Ele se debruçara sobre seus joelhos e chorava copiosamente. As outras crianças, em sua maioria meninos, estavam um pouco mais distantes e observavam a cena, curiosos. Agachei-me e perguntei ao garoto: Você quer me contar o que aconteceu? Ele, encharcado de lágrimas, respondeu: "Ah, me chamaram de baleia. Eu sei que eu sou gordo, não me importo, mas me chamar de baleia é demais. Eu sou gente!".

Outro dia, uma amiga me contava sobre o inferno que está sua vida em casa, pois está com vizinhos que, com bastante freqüência, têm invadido sua casa através de sons e barulhos extremamente inconvenientes, dados seu volume e qualidade duvidosa. Do território deles vêm palavras chulas, músicas em alto volume, em horários em que a rua deveria estar silenciosa para que as pessoas pudessem descansar. Após reclamações de minha amiga, a coisa piorou, o que evidencia, claramente, uma resposta, agora, provocativa. Essa amiga está bem perturbada com isso, irritada, insone, e experimenta um mal-estar só ao pensar que a noite está chegando e as manifestações provavelmente se repetirão.

Esses são dois exemplos de um fenômeno que está presente nas relações humanas e que agora recebeu o nome inglês de bullying. Esse termo descreve estados de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por uma pessoa - o bully, ou "valentão" - com a intenção de pressionar, intimidar e atacar outra pessoa. O bullying também pode ser praticado por um grupo de pessoas sobre outro grupo.

Estamos habituados a perceber, um pouco mais, esse fenômeno, na escola, entre alunos. Mas o mesmo também ocorre entre quaisquer adultos como casais, irmãos, pais e filhos, colegas de trabalho, governo e povo, e entre países.

Para ser caracterizado como bullying, um cientista sueco especifica três condições: que o ato seja agressivo e negativo, que haja repetição freqüente, e desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas.

O bullying é um tipo de assédio e a idéia é atormentar, humilhar e depreciar a "vítima", a pessoa escolhida para ser o alvo dos ataques. A pessoa é "eleita" porque o agressor a vê, por alguma razão, como frágil, vulnerável, ou inferior. Tem que estar presente uma estrutura de poder entre o agressor e a vítima. Esta, por razões particulares, recebe a ação do bully, de forma passiva. Em geral, sente-se impotente, imobilizada e acaba desenvolvendo medo, pânico, depressão, ou distúrbios psicossomáticos. Sua dignidade e auto-estima vão ficando muito prejudicados.

O bullying pode acontecer de forma evidente, através de atitudes agressivas claras, mas também pode se manifestar de formas sutis, através de elementos como gestos, olhares, atitudes sedutoras e intencionalmente confusas, o que torna difícil para a vítima, provar que está sendo alvo do tal fenômeno.

A organização psíquica, aqui, é perversa.

No artigo O Nariz do seu amigo, encontrado no menu de Psicologia do site, já abordei esse tema, do ponto de vista do bully, o que pratica o bullying. Simulei um diálogo com o "valentão" que estaria intimidando seu colega. Quis mostrar que com essa prática a pessoa tenta livrar-se de partes de si, intoleráveis, colocando-as no interior do outro. Trata-se de sentimentos diversos, ódios, desejos, frustrações, decepções, medos, pensamentos confusos, que, por causarem ameaça, a pessoa tenta livrar-se de entrar em contato com eles, de pensar sobre eles, de reconhecê-los e projeta-os, então, sobre outra pessoa, considerada como alvo certo para isso. A vítima certamente será portadora de algum traço ou condição que, aos olhos do bully, são negativos e dignos de rechaço. E, ao atacá-la, ele deposita ali essas partes que não quer ver dentro de si. É uma forma ilusória de aliviar a ameaça e o horror, mas, ao mesmo tempo, construindo para si uma condição e imagem de poder, de superioridade e de triunfo. Ou seja, seus verdadeiros sentimentos de impotência e inferioridade ficam disfarçados por uma capa de potência, superioridade e prazer. E o outro se torna depositário das angústias e aspectos que o bully não pode experimentar. A vítima sofre o seu sofrimento e o de seu agressor. Sendo assim, fica mais fácil enxergar o agressor como alguém que também está acuado por seus próprios fantasmas. Na verdade, ele é um oprimido e é quem, primeiramente, está intimidado.

Essa é uma visão do ponto de vista individual, mas não podemos esquecer que esse indivíduo está inserido numa sociedade, com certa cultura e condição social, e ele também representa, então, tudo isso. Uma sociedade com aspectos perversos, autoritários, ambíguos e confusos provoca em seus indivíduos sentimentos de impotência, de imobilidade, condição que gera apatia, depressão, mas também quadros de agressividade, violência, contestação ou rebeldia.

Do ponto de vista do que sofre o bullying temos uma pessoa que, direta ou indiretamente, aceita ficar na posição de oprimido, já que por razões próprias não consegue reagir e recusar esse papel. Tem medo de sua agressividade e com isso acaba direcionando para si, de forma masoquista, essa energia. O bully espera que sua vítima se assuste e que fique com medo. Se essas reações não existirem, se a pessoa mostrar-se indiferente e não afetada pela intimidação, o bullying não se configurará. Como já disse, para esse funcionamento, é preciso ter um agressor e um "agredido", um sádico e um masoquista. Não estou dizendo que essas pessoas, de ambos os lados, sejam possuidoras de estruturas assim determinadas, mas, pelo menos para a realização dessa dinâmica, é preciso que esses aspectos estejam presentes.

Na escola - foco do nosso interesse - é preciso, em primeiro lugar, haver consciência sobre o problema. Pensar que em nossa casa, ou escola, isso não acontece, é querer adotar postura muito ingênua e irresponsável. Uma postura preventiva é indispensável para impedir que o fenômeno se alastre e torne-se uma forma de pensamento e funcionamento social.

Abordar o problema de forma moralista e simplesmente repressora não atinge a extensão do fenômeno. Conhecer as causas intrapsíquicas e sociais é fundamental para buscar o domínio necessário. Um trabalho preventivo estaria evidentemente pautado, antes de tudo, na filosofia da escola que, ao ser democrática, ao proporcionar reconhecimento respeitoso aos seus indivíduos, ao garantir a liberdade de expressão e a ética, estará, a priori, oferecendo as condições básicas para a construção de relações humanizadas.

Isso vale para a escola como um todo, incluindo funcionários, professores, toda a sua estrutura humana.

Da parte da família, há também, claras responsabilidades em relação a seus filhos, no sentido de prepará-los para uma postura ética e madura em suas relações. Uma família perversa, em uns triunfam sobre os outros o tempo todo, irá produzir indivíduos igualmente perversos.

O bullying, portanto, é um sintoma. O que ele encobre precisa ser conhecido e transformado.

Élide Camargo Signorelli, Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.

 

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