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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Alienação parental
Por Élide Camargo Signorelli
08/09/2009 | Fonte: integral.br
A separação de um casal é um processo que envolve inúmeras reações, sentimentos, lutos. Pode-se dizer que seja uma ação traumática, pois provoca uma ruptura na organização vigente e exige uma transformação, com uma nova ação. A maneira como se dá a separação revela a saúde mental daqueles que compunham a relação de casal.
Quando o rompimento se dá e os impulsos de vida vigoram, as pessoas superam e seguem suas vidas buscando novos caminhos reparatórios. O processo passa por vários passos. Primeiro o baque, mesmo que não se o reconheça. O projeto que vai à falência, que se esgota e pede mudanças e providências. E, depois, cada passo é um convite a novas descobertas. O que se descobre depende da coragem daquele que perscruta não apenas pelas beiradas da relação, se acomodando com justificativas fúteis e objetivas, mas também no mergulho profundo que adentra pela "alma".
Desse olhar mais míope, mais astigmático, ou límpido e honesto, nascerá a paisagem que se tolera enxergar. Difícil momento. Impossível para alguns, "de letra" para outros.
Se não se identificam possibilidades de enfrentar e tolerar as dores, as sequências e consequências que a separação impõe, várias poderão ser as reações para buscar alívio, conforto e a ilusão de diminuir - ao máximo - as perdas inevitáveis.
Voltando ao documentário, fiquei pensando no título A Morte Inventada. O título é muito perspicaz porque traz, a meu ver, a contradição, o paradoxo. A morte que não se pode ver é encoberta pela morte inventada. A morte que não se pode ver, que remete à separação e às perdas que a legitimam é a morte de uma união, morte real, fato consumado. Provoca dor, impotência, imobilidades e, se houver espaço, também alívio, esperança e coragem. Mas, diante desse fato se é apenas mais um ser humano com a sua humanidade. Ao inventar a morte, ao contrário, pode-se ter a ilusão de se estar poderoso diante da catástrofe. É o triunfo: "Fui eu que criei a morte!".
E a alienação parental é uma dessas mortes inventadas. Na separação do casal, a pessoa que fica com a guarda dos filhos começa a empreender um trabalho de desmoralização do outro genitor. Descrédito, destruição da imagem, são providências tomadas para que os filhos passem a hostilizar o genitor até o ponto de o rejeitarem e de se recusarem, inclusive, a vê-lo ou falarem com ele.
Uma verdadeira campanha de publicidade negativa. Os filhos são a possibilidade que o guardião precisa para vingar-se e para atacar o ex-cônjuge. Se já estão feridos pela separação, já sofrem a perda do genitor que se retira da casa, ao serem ouvintes de constantes discursos de difamação do outro, condição acrescida pela fragilidade e incapacidade de criticarem a situação, tornam-se reféns inevitáveis do genitor guardião. Acontece que as falsas memórias construídas pelo genitor guardião acabam por se tornar verdadeiras, já que os filhos não têm condições de pesquisar a validade do discurso.
O documentário revela, de forma muito perspicaz, as nuances desse processo de violência psíquica. Há vários testemunhos de filhos dessa situação, testemunhos tocantes, chocantes, em que podemos ver os estragos, muitas vezes irreparáveis, provocados por ação tão covarde.
As estatísticas mostram que, na maioria, são as mulheres que protagonizam esse fenômeno. Algumas vezes o fazem inconscientemente. Não têm noção de que, ao participarem aos filhos suas opiniões, seus ódios em relação ao ex-cônjuge vão disseminando sentimentos confusos e os mesmos ódios que elas sentem. Outras mulheres fazem-no propositadamente. E, num requinte de sadismo, chegam a apelar, ao criarem histórias de abuso sexual, o que faz com que o Poder Judiciário imediatamente suspenda a visitação. Inicia-se aí um processo de avaliação da situação, com a participação de uma equipe interdisciplinar formada por psicólogos, assistentes sociais e psiquiatras, que evidentemente lança a criança em situações constrangedoras e de maior sofrimento ainda, já não bastasse o que está passando apenas pela separação dos pais. Como isso tudo é muito lento, o genitor acusado e seus filhos perdem o contato, e assim fica consumado um abismo entre eles, cuja ponte de ligação talvez jamais possa ser reconstruída. Os danos são terríveis.
Todos os envolvidos - juiz, advogados, genitores, psicólogos, assistentes sociais - precisam estar muito preparados para lidar com esse problema. E a preparação exige um conhecimento que a psicanálise pode trazer para a consciência de que se está lidando com o inconsciente, com ambivalências, contradições e conflitos. Sem a consideração de que há um inconsciente com suas manobras obscuras e sombrias e que existem em todos - eu disse todos - nós, qualquer entendimento se tornará deficiente.
A alienação não é um fenômeno restrito apenas às situações de separação do casal. Mesmo dentro do casamento, enquanto a família ainda está constituída, muitos cônjuges envolvem os filhos, de forma sutil ou manifesta, na relação dos dois. Podem tentar alianças particulares com um dos filhos, na intenção de fortalecer sua posição na família. Enfim, inúmeras poderão ser as estratégias, sejam conscientes ou inconscientes.
Aos guardiões alienadores é preciso que saibam que, com ações assim, nada se ganha; ao contrário, todos perdem, principalmente os filhos.
Élide Camargo Signorelli, Élide Camargo Signorelli<br /> Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.<br /> <br />