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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Profissão Pinóquio
Por Élide Camargo Signorelli
01/10/2009 | Fonte: integral.br
Recomendo Pinóquio (Pinocchio), filme italiano de 2002, dirigido e estrelado por Roberto Benigni (de A Vida é Bela), como uma ótima oportunidade de rever este conto tão conhecido e tão revelador das nossas aflições. Só para relembrar, Gepeto, um solitário carpinteiro, constrói um boneco de madeira para lhe fazer companhia. A Fada azul - encenada, no filme, por Glenn Close - com pena do velhinho, decide dar vida ao boneco. E a partir daí desenrola-se o penoso processo de Pinóquio em relação ao seu crescimento.
O Pinóquio boneco é, eu diria, antiético, pois representa a falta da moral e do dever, a falta de comprometimento, a negação da lei e, principalmente, a busca teimosa e inconformada pelo prazer absoluto. Refém de seus próprios desejos, ele é marionete de um princípio que Freud, o pai da psicanálise, definiu como o princípio do prazer, uma condição mental regida totalmente pela busca da satisfação imediata do prazer, pela busca idealizada da possibilidade de encontrar uma condição em que não haja perdas, frustrações, esperas e renúncias. O princípio do prazer representa a tendência inata do organismo de evitar a dor e buscar o prazer.
E Pinóquio, ainda boneco, vive atormentado pela tentação da queda, do resgate a esse estado mental de prazer. E o mundo das delícias, o Jardim do Éden, que o filme retrata muito bem, repleto de diversões, guloseimas de todo tipo, um mundo infinito e atemporal, é o lugar para onde Pinóquio vai, quando se deixa sucumbir pelos gatunos, um gato e uma raposa que, no caminho do desenvolvimento do boneco, aparecem para destruir suas tentativas de assunção da realidade. O boneco devora a comida, um impulso voraz que, ao contrário do ato de comer, já implica uma ação não pensada, elemento presente no princípio do prazer.
Um diálogo entre Pinóquio e o Grilo Falante, o animalzinho que representa a consciência e a possibilidade de desenvolvimento da mente do boneco, ilustra o princípio da realidade:
Pinóquio: - Entre todas as profissões do mundo, só tem uma de que eu realmente gosto.
Grilo Falante: - E qual seria essa profissão?
Pinóquio: - A de comer, beber, dormir, me divertir e vagabundear de manhã até de noite.
Freud, em seu reconhecido trabalho, O Mal-Estar da Civilização, mostra como o princípio do prazer, presente em todos nós, precisa dar lugar ao princípio da realidade para que o processo civilizatório aconteça e se mantenha. O princípio da realidade representa o adiamento da satisfação imediata em prol de uma satisfação maior e mais condizente com a possibilidade de convivência humana. Freud diz que a primeira exigência da civilização é a justiça, a garantia de uma lei que não será violada em favor de um indivíduo, apenas, de forma que todos aqueles que querem ingressar em uma comunidade, que desejam fazer parte de um conjunto, o fariam através do sacrifício de seus instintos, contendo, assim, a força bruta.
É o que cabe a todos nós, em nome da civilização e de um lugar na esfera social, no mundo humano adulto, reprimirmos nossas tendências naturais, impulsos e desejos. Para nos libertarmos do estigma de marionetes, eternamente egocêntricos e individualistas, precisamos olhar à nossa volta e, reconhecendo a existência do outro, tornarmo-nos humanos. É claro que isso tem um preço e muito alto, pois trata-se de restringir a natureza humana, uma violência, em nome de um lugar concedido dentro da civilização. O mal-estar a que Freud se refere é o que representa essa situação.
Interessante observar, no diálogo entre Pinóquio e o Grilo Falante, a alusão à profissão que, para o boneco, é a de comer, beber, dormir, divertir e vagabundear o dia todo. Penso que ele comete um equívoco porque a profissão é justamente um ideal do ego, a forma, através da qual o indivíduo faz sua passagem para o mundo adulto e civilizado. A profissão é um dos meios pelos quais se humaniza. Assim, não faz sentido associar a situação paradisíaca e infantil - condição do princípio do prazer - à profissão, que é um ideal da maturidade e está ligado ao princípio da realidade.
Em vários momentos, Pinóquio se transforma em animal, se animaliza, se afasta da condição humana, quando sua mente está regida pelo princípio do prazer. Cena clássica é quando ele se transforma num burrico. A humanização acontece quando ele reconhece a existência do outro. Uma passagem que ilustra bem isso é quando o boneco dá todo o seu dinheiro para ajudar a Fada azul, que está em dificuldades. Há, com o amadurecimento, uma mudança na economia emocional, em que, em vez de querer reter tudo para si, passa a pensar não mais somente nele, mas também a se preocupar com o outro.
Outra passagem igualmente simbólica se dá com um caracol. Pinóquio fala com ele, que está na última janela do último andar de uma casa. O caracol, por sua vagareza, só consegue chegar em baixo, ao amanhecer, e isso faz com que o boneco tenha de esperar, de desenvolver a paciência, elemento presente no princípio da realidade.
Esse conto ilustra, então, em detalhes, o desenvolvimento humano, processo cuja passagem se faz da imaturidade à maturidade, da total irresponsabilidade infantil à assunção da consciência e lucidez em relação ao que nos cabe como cidadãos e membros de uma sociedade.
Esse atravessamento, da infância para o mundo adulto, é um caminho de muitos desejos, conflitos, vaivéns e ambivalências. É um caminho doloroso em virtude das perdas e renúncias que sofremos para crescer. Não se trata, tampouco, de que tornar-se adulto implica perder o prazer, ou perder a graça, como
muitos adolescentes referem. A graça está no constante desafio de conhecer-se, de reconhecer a si e ao outro, de alimentar os vínculos e de não perder os valores e os sentidos importantes para que o boneco se torne gente.
Élide Camargo Signorelli , Élide Camargo Signorelli<br /> Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.<br /> e-mail: elidesig@hotmail.com<br /> <br />