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Artigos - Psicologia

O que fizeram com a primavera?
Por Élide Camargo Signorelli
15/09/2009 | Fonte: integral.br

Ontem, à noitinha, voltando do trabalho, passei por uma experiência impactante. O leitor pode pensar que fui assaltada no semáforo. Isso já aconteceu, mas não dessa vez. Um acidente, talvez? Felizmente não. Um encontro marcante com alguém significativo? Também não.

Sem mais suspense vou contar. Passando em frente a uma loja fui atraída pela vitrine que estava enfeitada com arranjos natalinos. Uma árvore de Natal, um grande papai Noel e os adereços típicos dessa época, objetos, luzes, enfeitavam com muito gosto aquele espaço. Quero lembrar, para quem estiver distraído, que hoje é 10 de setembro! E, para os mais atentos e sensíveis, esse artigo já poderia parar por aqui, somente com a localização temporal. Mas continuo essa conversa em nome daquelas pessoas que ficarão hipnotizadas pela sempre bem-vinda paisagem natalina.

Com o artigo pretendo exercitar minha capacidade de pensar, atenta às ações diretas e indiretas de um sistema sócio-econômico-cultural que vai impondo os novos códigos e signos da sociedade contemporânea. Fico um tanto alarmada porque não se trata, apenas, de uma loja de objetos decorativos, na briga competitiva por um lugar no mercado. Lembro-me, agora, de que no ano passado, essa mesma loja inaugurou sua vitrine natalina, no final de outubro, e já naquela época eu estranhei a situação, pois esperava que essa iniciativa se desse após o feriado de finados, no início de novembro.

Preparemo-nos, então, para ver, no futuro, papai Noel carregando ovos de Páscoa, o coelho nas avenidas carnavalescas, e outras situações bizarras, resultado do amontoamento dos acontecimentos que costumam marcar sentidos durante o ano, alguns deles criados pelo sistema econômico e outros, pela própria natureza.

Para mim, com meu ritmo cíclico, eu deveria ver, nesse momento do ano, lojas decoradas com flores, anunciando a chegada da primavera, essa bela e colorida estação do ano. Sou do tempo em que o reconhecimento da existência de ciclos determinava, claramente, o que se devia esperar para cada época do ano. Por exemplo, só se comiam morangos no inverno e mangas no verão. Era uma alegria ver as bancas de feira trazendo de volta aquelas frutas que esperávamos durante o ano, enquanto comíamos outras que só existiam, também, num determinado momento do ciclo anual. O mesmo acontece com as flores, que passam por um processo maturativo até o seu desabrochamento. Esta semana fiquei feliz por ser presenteada pela paciência ao esperar que um vaso de orquídeas tornasse a florescer, após seis longos meses de maturação.

O ciclo, bem definido, nos ajuda a discriminar os contornos de cada época e a nos situar a partir do que devemos esperar de cada condição. São limites importantes para definir fronteiras e as passagens, mudanças e transformações inerentes. Cada época, com sua conjuntura sócio-político-econômica, marca os valores e os códigos que irão vigorar e determinar as mudanças na sociedade, em todos os aspectos. As formas de subjetivação, os padrões sociais, as configurações familiares, a educação, saúde, cultura, refletem essa nova ordem de coisas.

E um aspecto que chama a atenção é o que se refere à perda dos sinais e elementos que diferenciam e separam, delimitam instâncias, relações e papéis subjetivos, e que são necessários para definições e norteamentos mais claros para a nossa existência. O risco de se transgredir os limites naturais, sejam quais forem, é o de um progressivo borramento dos contornos que diferenciam os estados, as situações e as relações. Com essa condição difusa e "esfumaçada", as ações com suas singularidades e especificidades se evaporam e podem disseminar confusão, desnorteamento e impossibilidade de marcar sentidos mais claros e sustentáveis para a vida.

O tempo é um elemento-sintoma do que estou falando. Muito se fala, hoje, sobre a impressão de que ele está passando muito depressa, de que não se tem tempo para mais nada. Por um lado, a ideia que se veicula é a de pressa, de movimentação total, de atualização constante, de preenchimento do tempo. Uma consequência disso é a sensação de estar atrasado, de estar perdendo tempo, de uma interminável dívida para com coisas, providências e compromissos que têm de ser cumpridos para a assunção de um lugar no mundo. O que parece ser um total comprometimento, um superengajamento, pode mascarar um distanciamento, ao mesmo tempo, da essência.

A mídia, o comércio, os pensadores nos diversos veículos de comunicação, dentro do sistema social, são formadores de opinião e por isso têm uma responsabilidade muito grande em suas expressões e naquilo que escolhem para sua abordagem, porque disseminam desejos, tabus e mitos que deverão circular pela atualidade.

Quando se atropela a primavera, por exemplo, não se desrespeitam somente as flores, mas um pedaço do tempo que nos orienta. A pressa, o desespero e o medo de perder nosso lugar na vida social – sentimentos que estão presentes nessas atuações - são o que podem nos levar, ironicamente, a perder justamente os elementos de que necessitamos para os vínculos verdadeiros e sustentáveis.

Élide Camargo Signorelli , Élide Camargo Signorelli<br /> Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.<br /> e-mail: elidesig@hotmail.com<br /> <br />

 

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