UNIDADE I
R. Cel. João Leme, 410Bairro: Centro
Fone: (011) 4033 1118
UNIDADE II
Av. Salvador Markowicz, 571Bairro: Jd. Sta. Helena
Fone: (011) 4032 4971
UNIDADE III
Av. Salvador Markowicz, 541Bairro: Jd. Sta. Helena
Fone: (011) 4033 5352
contato@cursointegral.com.br
Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
O que fizeram com a primavera?
Por Élide Camargo Signorelli
15/09/2009 | Fonte: integral.br
Sem mais suspense vou contar. Passando em frente a uma loja fui atraída pela vitrine que estava enfeitada com arranjos natalinos. Uma árvore de Natal, um grande papai Noel e os adereços típicos dessa época, objetos, luzes, enfeitavam com muito gosto aquele espaço. Quero lembrar, para quem estiver distraído, que hoje é 10 de setembro! E, para os mais atentos e sensíveis, esse artigo já poderia parar por aqui, somente com a localização temporal. Mas continuo essa conversa em nome daquelas pessoas que ficarão hipnotizadas pela sempre bem-vinda paisagem natalina.
Com o artigo pretendo exercitar minha capacidade de pensar, atenta às ações diretas e indiretas de um sistema sócio-econômico-cultural que vai impondo os novos códigos e signos da sociedade contemporânea. Fico um tanto alarmada porque não se trata, apenas, de uma loja de objetos decorativos, na briga competitiva por um lugar no mercado. Lembro-me, agora, de que no ano passado, essa mesma loja inaugurou sua vitrine natalina, no final de outubro, e já naquela época eu estranhei a situação, pois esperava que essa iniciativa se desse após o feriado de finados, no início de novembro.
Preparemo-nos, então, para ver, no futuro, papai Noel carregando ovos de Páscoa, o coelho nas avenidas carnavalescas, e outras situações bizarras, resultado do amontoamento dos acontecimentos que costumam marcar sentidos durante o ano, alguns deles criados pelo sistema econômico e outros, pela própria natureza.
Para mim, com meu ritmo cíclico, eu deveria ver, nesse momento do ano, lojas decoradas com flores, anunciando a chegada da primavera, essa bela e colorida estação do ano. Sou do tempo em que o reconhecimento da existência de ciclos determinava, claramente, o que se devia esperar para cada época do ano. Por exemplo, só se comiam morangos no inverno e mangas no verão. Era uma alegria ver as bancas de feira trazendo de volta aquelas frutas que esperávamos durante o ano, enquanto comíamos outras que só existiam, também, num determinado momento do ciclo anual. O mesmo acontece com as flores, que passam por um processo maturativo até o seu desabrochamento. Esta semana fiquei feliz por ser presenteada pela paciência ao esperar que um vaso de orquídeas tornasse a florescer, após seis longos meses de maturação.
O ciclo, bem definido, nos ajuda a discriminar os contornos de cada época e a nos situar a partir do que devemos esperar de cada condição. São limites importantes para definir fronteiras e as passagens, mudanças e transformações inerentes. Cada época, com sua conjuntura sócio-político-econômica, marca os valores e os códigos que irão vigorar e determinar as mudanças na sociedade, em todos os aspectos. As formas de subjetivação, os padrões sociais, as configurações familiares, a educação, saúde, cultura, refletem essa nova ordem de coisas.
E um aspecto que chama a atenção é o que se refere à perda dos sinais e elementos que diferenciam e separam, delimitam instâncias, relações e papéis subjetivos, e que são necessários para definições e norteamentos mais claros para a nossa existência. O risco de se transgredir os limites naturais, sejam quais forem, é o de um progressivo borramento dos contornos que diferenciam os estados, as situações e as relações. Com essa condição difusa e "esfumaçada", as ações com suas singularidades e especificidades se evaporam e podem disseminar confusão, desnorteamento e impossibilidade de marcar sentidos mais claros e sustentáveis para a vida.
O tempo é um elemento-sintoma do que estou falando. Muito se fala, hoje, sobre a impressão de que ele está passando muito depressa, de que não se tem tempo para mais nada. Por um lado, a ideia que se veicula é a de pressa, de movimentação total, de atualização constante, de preenchimento do tempo. Uma consequência disso é a sensação de estar atrasado, de estar perdendo tempo, de uma interminável dívida para com coisas, providências e compromissos que têm de ser cumpridos para a assunção de um lugar no mundo. O que parece ser um total comprometimento, um superengajamento, pode mascarar um distanciamento, ao mesmo tempo, da essência.
A mídia, o comércio, os pensadores nos diversos veículos de comunicação, dentro do sistema social, são formadores de opinião e por isso têm uma responsabilidade muito grande em suas expressões e naquilo que escolhem para sua abordagem, porque disseminam desejos, tabus e mitos que deverão circular pela atualidade.
Quando se atropela a primavera, por exemplo, não se desrespeitam somente as flores, mas um pedaço do tempo que nos orienta. A pressa, o desespero e o medo de perder nosso lugar na vida social – sentimentos que estão presentes nessas atuações - são o que podem nos levar, ironicamente, a perder justamente os elementos de que necessitamos para os vínculos verdadeiros e sustentáveis.
Élide Camargo Signorelli , Élide Camargo Signorelli<br /> Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.<br /> e-mail: elidesig@hotmail.com<br /> <br />