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Artigos - Psicologia

As cartas que já escrevemos
Por Élide Camargo Signorelli
05/10/2009 | Fonte: integral.br

Hoje já não escrevemos cartas, ficaram obsoletas. Quem vai pegar em uma caneta e escrever, de próprio punho, sobre si ou sobre qualquer outra coisa, prestar-se ao serviço de ir ao correio, encaminhar a carta ao destinatário, com o incômodo de pesquisar o endereço, bairro, CEP, e esperar os dias que levarão para a dita cuja chegar às mãos do receptor? Quem?

Na adolescência escrevi muitas cartas, para amigas, parentes distantes. Cartas de desabafo. Cartas com sonhos e projetos. Cartas apaixonadas e desapaixonadas. Cartas de rompimento. Muitas cartas. Eu fazia rascunho e "passava a limpo", ou então eram tão claras minhas ideias e intenções, que nem de rascunho precisavam.

Na história da Humanidade, inúmeras foram as cartas que trouxeram em suas linhas revelações importantes, fundamentais para o destino dos acontecimentos, para a orientação das ações que seriam tomadas. Cito a de Pero Vaz de Caminha, o escrivão que, no descobrimento do Brasil, para registrar suas primeiras impressões sobre a terra, escreveu uma carta para D. Manuel, em Portugal, carta que se tornou o primeiro documento escrito da história do Brasil, marco inicial da obra literária no país. Outra carta histórica é aquela em que no drama shakespeariano, Romeu e Julieta, devido ao extravio ou demora, acabou por selar a tragédia que culminou com a morte do casal de amantes.

Freud também se utilizou das cartas, inúmeras vezes, para suas elucubrações e interlocuções. Famosas foram as cartas entre Wilhelm Fliess e Freud. Médico alemão, Fliess (1858-1928) foi protagonista importante na pré-história da Psicanálise. Com ele, Freud compartilhou suas ideias iniciais sobre sua teoria. Pequeno trecho a seguir descreve bem um momento de angústia:

"As coisas estão fermentando dentro de mim, mas não concluí nada... O principal paciente que me preocupa sou eu mesmo... a análise é mais difícil do que qualquer outra coisa. E é ela também que paralisa minha energia psíquica para descrever e comunicar o que consegui até agora".

O livro intitulado Minhas Queridas, editora Rocco, reúne 120 cartas que a escritora Clarice Lispector escreveu para as irmãs, entre 1940 e 1957, quando estava no estrangeiro. Nessas cartas ela relata suas impressões sobre as 31 cidades pelas quais passou. Revelou intimidades, além da clara história de amor que nutria com suas irmãs.

Contardo Calligaris, psicanalista e articulista da Folha de S. Paulo, escreveu Cartas a um jovem psicanalista, na intenção de refletir sobre o papel do psicanalista na contemporaneidade, considerando a formação necessária ao jovem analista para os enfrentamentos que terá de fazer ao acompanhar seus pacientes em sua condição humana, carregada de angústias e aflições. O título desse livro parafraseia o livro de Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, coletânea com 10 cartas endereçadas a Franz Chave Kappus, jovem que tinha muitos conflitos em relação a seguir adiante na carreira de poeta. Ele quer se aconselhar com Rilke e lhe envia cartas, revelando suas dúvidas e enviando alguns de seus poemas. Rilke (1875-1926), nascido em Praga, escreveu em alemão, também, O livro das Horas, Elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu. Em Cartas a um jovem poeta, entre 1903 e 1908, o poeta experiente aconselha o jovem aflito, e assim registra seu pensamento em relação à postura que se pode ter diante de questões importantes, que, no caso, se referiam à assunção da profissão de poeta.

Vou transcrever aqui alguns trechos de suas cartas, pois os conselhos ali inscritos são, ao mesmo tempo, muito atuais e podem servir de bússola para o exercício de pensar a vida com as decisões inevitavelmente exigidas:

"O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever: examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?...Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; nesta fonte é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar."

Vemos neste trecho o quanto o escritor afirma como são fundamentais a análise e o conhecimento profundos sobre si mesmo. O olhar "para dentro", além daquele que o leva "para fora", também, é essencial para a descoberta de sua essência, trabalho que somente a pessoa pode fazer. Sobre isso ele ainda acrescenta:

"Queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa. É sempre a si mesmo e a seu sentimento que deve dar razão. Mesmo que se engane, o desenvolvimento natural de sua vida interior há de conduzi-lo devagar, e com o tempo, a outra compreensão. Deixe a seus julgamentos sua própria e silenciosa evolução sem a perturbar; como qualquer progresso, ela deve vir do âmago do seu ser e não pode ser reprimida ou acelerada por coisa alguma."

[...] "O senhor é tão moço, tão aquém de todo começar que lhe rogo ter paciência com tudo o que há para resolver em seu coração e procurar amar as próprias perguntas como quartos fechados ou livros escritos num idioma muito estrangeiro. Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver: pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta".

Interessante, aqui, é reconhecer um princípio da técnica psicanalítica, em que se pretende que o paciente, em seu processo de autoconhecimento, possa construir perguntas acerca de si mesmo, e permanecer com elas, antes de atropeladamente buscar as possíveis ou impossíveis respostas. Ainda outro trecho:

"É bom o senhor abraçar antes de tudo uma profissão que o tornará independente e o entregará exclusivamente a si, em todos os sentidos. Aguarde com paciência, a ver se a sua vida íntima se sente limitada pela forma dessa profissão. Mas a sua solidão há de dar-lhe, mesmo entre condições muito hostis, amparo e lar, e partindo dela encontrará todos os caminhos. Todos os seus desejos estão prontos a acompanhá-lo e minha confiança está consigo".

Aqui podemos ver que Rilke enfatiza a paciência como elemento necessário ao verdadeiro confronto com o que se tem de perceber, reconhecer e amadurecer nesse processo de autoconhecimento.

Pergunto se o jovem de hoje conseguirá empurrar as pressões de fora, os movimentos que querem apressar e acelerar aquilo que precisa ser amadurecido e só com o tempo podem alcançar esse estado. Como diz Rilke, há uma solidão inerente a esse processo. Todos podem ajudar, com uma presença amorosa e pacienciosa, mas é a cada um de nós que cabem as decisões mais importantes da vida.

Élide Camargo Signorelli , Élide Camargo Signorelli<br /> Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

 

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