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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
Adolescência: corpo, vida e morte
Por Élide Camargo Signorelli
14/10/2009 | Fonte: integral.br
Toda sociedade, em qualquer época, constrói seus padrões e modelos em volta da questão da beleza e, apesar de seu caráter subjetivo, muitas pessoas buscam encaixar-se na forma humana da atualidade. Para a minha avó, bonita era a mulher gorda, com formas arredondadas. Quando ela nos elogiava não sabíamos se ficávamos ou não felizes. Sua visão estética trazia, ainda, resquícios do Renascimento, em que a beleza e a saúde revelavam-se nos quilos a mais que a mulher sustentava. Há pouco tempo entendi porque eu dizia que, ao envelhecer, temia ficar com a barriga da minha avó. Era uma barriga redonda, branquinha, com pequenas verrugas espalhadas. Com todo o respeito à minha avó - mulher corajosa - e sem excluir outras possibilidades, entendo, hoje, que aquela barriga representava certo aprisionamento à condição da maternidade. A maternidade não era o que incomodava, claro, e sim o fato de que restava à mulher ficar reduzida a essa condição, como se fosse uma obrigação ou a única capacidade autorizada e, ao mesmo tempo, isso carregava a negação da libido sexual na mulher. Maternidade e sexualidade são elementos que sempre deram trabalho ao desafio de integrá-los.
Por volta de 1960, o corpo magro substituiu as formas arredondadas, não sem um preço muito alto, com um aumento dos distúrbios alimentares como a anorexia e a bulimia. E a questão não se reduz à forma do corpo, mas a um corpo sem desejo, sem sexualidade. A perda do apetite representa a perda da libido. Esse é um paradoxo, pois se parece que houve uma emancipação da mulher no sentido de uma assunção dos desejos sexuais; tem havido, ao mesmo tempo, um sacrifício da condição sexual, que, dentre várias coisas, simboliza a separação entre mãe e filha. Se existe uma fusão entre mãe e filha pode ser que a menina tenha dificuldades de entender sua subjetividade fora do alcance dessa mãe invasiva.
Essa situação acaba sendo vivida com o pano de fundo do mundo ocidental pós-moderno que expõe e valoriza, em suas propagandas, modelos de perfeição, de comportamento, acentuando uma beleza que nega, violentamente, todos os processos de individuação, de desenvolvimento da personalidade e da distinção entre eu/não-eu.
França e Inglaterra criaram uma lei em que é proibido fazer photoshop nas propagandas de adolescentes e crianças. A medida entende que a perfeição exibida nas fotos que corrigem os defeitos da imagem é perniciosa e provoca a busca obsessiva a esse estado sem erros e falhas. E como os adolescentes estão em momento de grande confronto com as questões das transformações do corpo, tornam-se muito vulneráveis, inseguros, o que pode levá-los a caírem nessa armadilha de que é possível e até vital adquirirem tal corpo.
Nos adolescentes ? especialmente as meninas, diante dos enfrentamentos em relação à distinção sobre o seu papel infantil, o desapego à mãe para poderem crescer, aliado aos apelos agressivos da mídia oferecendo um mundo frenético, sedutor, mas ao mesmo tempo impossível de ser alcançado ? isso provoca angústias muitas vezes intoleráveis. O que vemos são manifestações psicossomáticas, quadros hipocondríacos, fantasias de morte, coisas colocadas no nível do corpo apenas, já que ainda não há mente suficiente para pensar sobre tudo isso.
A psicanalista Marina Ramalho Miranda descreve a anorexia como: "Uma boca que pouco come, um psiquismo que pouco elabora... magra de carne, de ideias, boca fechada para a comida, mente fechada a reflexões". Diante de quadros assim, é preciso refletir muito a respeito da importância do vínculo no sentido verdadeiro e realista do conceito, como algo que une duas pessoas distintas, numa dependência não aprisionante, mas livre e construtiva.
Diante do discurso repetitivo do corpo, é preciso apresentar, de forma amorosa, a mente como possibilidade de pensar as questões existenciais da vida. A busca obcecada pelas próteses mamárias parece, numa tendência ao exagero, representar uma tentativa de buscar um peito nutridor (leia-se uma boa imagem da mãe dentro de si) que ajude a jovem a viver a vida com a complexidade que ela tem. O que não pode é ficar somente no objeto corporal, o silicone, o corpo desprovido do sentido simbólico, como aquele que envolve e acolhe uma subjetividade, uma existência humana.
O peito de que homens e mulheres necessitam para viver não está na aquisição da prótese de silicone, mas numa condição simbólica, que representa o reconhecimento de que precisamos do outro, de que os vínculos afetivos são muito importantes em nossa vida, e que é dessa parceria saudável e criativa que nascerão os frutos, os pensamentos, os sentimentos, as ideias e os sentidos da vida.
Élide Camargo Signorelli, Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.