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Artigos - Psicologia

Mãe e filha e o tempo
Por Élide Camargo Signorelli
15/10/2009 | Fonte: Integral.br

Acabo de chegar de Madri, Espanha. Fui acompanhar minha filha que inicia seu curso de Filologia Inglesa na Universidade Complutense de Madri. Ela, com 21 anos, está construindo a sua história. Não é tarefa fácil deixar a adolescência, mesmo porque também não é nada fácil vivê-la. E os caminhos que minha filha vem trilhando, para chegar ao mundo adulto, contemplam, como os de qualquer outro, trechos de labirinto, de claridades e escuridões, de desertos e abundâncias, de planos e ondulações dignos de reconhecimento. Passado, presente e futuro vão se entrelaçando e tecendo um pano de fundo sobre o qual ela tenta identificar-se, descobrir suas essências e desenvolver sua subjetividade.

As emoções que colorem essa experiência não se reduzem, então, à simples obtenção do prazer. Não se cruzam labirintos somente com alegrias e coragens. O medo, o espanto, a confusão e a dor também estão presentes. O jovem vai descobrindo, com certa rebeldia e indignação ou com onipotências e negações, que viver lhe exigirá enfrentamentos, renúncias e sacrifícios, embora, em qualquer estado ou condição, ele sempre irá contar com a liberdade de fazer de sua vida o que quiser.

Minha filha se preparou todo o primeiro semestre para fazer as provas que abririam as portas para a escolha que fez. E uma vez aprovada, chegou o momento de fazer as malas e seguir viagem. Se tivesse escolhido uma universidade em sua própria cidade, ela permaneceria vivendo em sua casa e essa viagem, de passagem da adolescência, teria a sua própria constituição a partir dos limites e possibilidades presentes nesta condição. Mas ela escolheu cruzar fronteiras mais longínquas, provocando e dificultando seus desafios.

De qualquer maneira eu, como mãe, não passaria ilesa por isso tudo. Bem que esperneei, pobre mortal. Supliquei, pelos cantos, que pudesse ser poupada, pedi misericórdia, mas não fui atendida. Decidiu-se, na família, que eu iria acompanhá-la até Madri, já que eram muitas as malas e providências a serem tomadas para sua instalação na capital espanhola. Não que ela não pudesse fazê-lo sozinha, mas resolvemos apoiá-la - por seu próprio desejo e também pelo nosso - nesse importante momento.

No abrir das asas e no esgarçamento das raízes acomodadas lá fomos nós. Eu sabia que estaríamos juntas durante dez dias, mas tinha consciência, também, de que se anunciava ali a nossa separação. Não era só corporal a ruptura, mas ela corroborava a mais importante, a separação emocional, em que estávamos marcando as distinções de tempo, as diferenças de momentos de cada uma, as perspectivas próprias que nos apresentavam diante dos olhos.

A visita que fizemos ao Museu Nacional Del Prado me ajudou a colher imagens e símbolos para representar os elementos que para mim estavam contidos nessa viagem de separação e de assunção dos diferentes caminhos. Assim que comecei o passeio pelos pintores, deparei-me com O Tempo vencido pela Beleza e pela Esperança, tela do pintor barroco francês Simon Vouet (1627).

Trata-se de um velho sentado ao chão, segurando uma ampulheta. Era o Tempo, agarrado, por um lado, pela beleza - representada por uma mulher - e, por outro, pela esperança, outra mulher. A beleza agarrava o Tempo pelos cabelos, e a esperança o ameaçava com uma âncora, com a qual o espetava. Logo ali, à nossa frente, já havia a questão essencial nos presenteando com a dura realidade da qual não se consegue escapar. O velho é a constatação do tempo, do nosso envelhecimento e mortalidade. A beleza é a nossa súplica e legítima tentativa de esticar os limites e retardar o escoamento dos grãos na trágica ampulheta, e a esperança, a resignada aceitação da morte.

Eu, que não tenho mais a juventude de minha filha, arrepiei diante do Tempo, num misto de desespero e respeito. Mas naquele riquíssimo museu também havia outras alegorias que - entre a beleza e a esperança - recheavam e enriqueciam essa passagem, tornando-a um pouco mais suportável.

Passamos por Saturno, o deus da mitologia, que devorou o filho por medo de perder o poder. Vimos Las três Gracias, de Peter Paul Rubens, representando a alegria de viver; Tobias devolve a visão a seu pai, de Rembrandt van Rijn (1636). Tragédia, sensualidade, desejo, infância, o sagrado, o amor e o mito pairavam pelo museu, encantando e assombrando, mas, ao mesmo tempo, ofertando-nos a vida.

Se nessa viagem eu tinha a missão de ajudar minha filha a fazer sua transição para o mundo adulto, ela, através da oportunidade que me deu de acompanhá-la, me proporcionou a possibilidade de, bebendo da fonte de sua juventude, me reencontrar com a força e a vitalidade de que preciso para seguir o meu caminho.

Élide Camargo Signorelli, Élide Camargo Signorelli, Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

 

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