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Bragança Paulista - SP
Artigos - Psicologia
O professor em crise - II
Por Élide Camargo Signorelli
16/11/2009 | Fonte: Integral.br
Abandonando os clichês de que o adulto tem de ser sério, infalível e continuamente equilibrado, encontrar uma posição que tenha a ver com a maturidade é buscar, antes de tudo, a humanidade que está em cada um de nós. O crescimento e o desenvolvimento do ser humano - especialmente o emocional - não se fazem de forma linear, contínua e constante. Ao contrário, é um processo repleto de ambivalências, resistências, oscilações e fixações. O equilíbrio emocional implica um estado suficientemente estável, em que a pessoa alcançou um domínio sobre seus impulsos, consciência e conhecimento sobre si, o bastante para se tornar responsável e lúcido em relação às suas escolhas e atitudes. E é em cima desse alicerce que a autoridade se assenta.
Neste artigo que agora escrevo, senti necessidade de voltar ao tema para, dessa vez, enfatizar a questão da escola como referência maior de autoridade. Ela que se constitui de um quadro hierárquico que inclui o diretor, o coordenador, o orientador educacional e o professor - no que diz respeito ao processo educacional em si - e precisa tomar consciência, mais do que nunca, sobre as forças com que deve contar para sustentar a estrutura escolar e educacional.
Numa sociedade de consumo, em que a ideia de que com o dinheiro pode-se adquirir tudo o que se deseja, a escola vem se tornando mais um produto exposto nas prateleiras de um comércio frenético, e o professor, mais um objeto que terá ou não condições de atrair o seu consumidor. Diante da concorrência e de um pressuposto de que vale tudo para se conseguir o aluno-cliente, muitas vezes a escola perde suas bases éticas e filosóficas. Num mercado que gira com uma velocidade absurda e avisa que não se pode perder tempo, e que, principalmente, não se pode perder, isso pode acabar por levar a um apagamento dos contornos que definem a personalidade da escola e a perda, então, de sua identidade.
A escola, ao desesperar-se por um lugar no mercado, pode entender que deve fazer de tudo, até perder seus ideais e princípios. A ironia é que é justamente o afrouxamento dessas bases que levará a escola a perder o domínio que precisa ter para garantir o desenvolvimento do trabalho escolar. O medo de assumir uma posição - em detrimento de outras -, que naturalmente seleciona a clientela, é um elemento importante na decadência do corpo docente e da escola como autoridade.
Se é importante que uma escola ofereça coisas como espaço físico, equipamento tecnológico, professores gabaritados e mais outros produtos que ela pode acrescentar para atrair o aluno e sua família, penso que ela não pode deixar de lado uma questão fundamental: que não haja medo de bancar suas posições e que estas sejam sustentadas de forma integrada por toda a equipe que compõe a escola. Há que se formar uma rede coerente para que o aluno perceba que ali há uma estrutura firme o suficiente para acompanhá-lo.
O professor, que está diretamente com o aluno, nesse processo diário, precisa saber e sentir que está inserido numa rede que o protege e que lhe dá apoio para que ele se apresente como referência de autoridade e respeito. Sozinho ele perde a força e fica por demais vulnerável a todas as investidas que o jovem é capaz de fazer para desafiar uma autoridade da qual, ao mesmo tempo, ele tanto precisa.
Élide Camargo Signorelli, Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.