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Artigos - Psicologia

A partida
Por Élide Camargo Signorelli
20/11/2009 | Fonte: Integral.br

Fui atingida por um filme. Em minha sensibilidade. Dramática forma de dizer, mas é a pura verdade. Penso que o cinema é uma maneira criativa de fornecer imagens e narrativas que podem fazer a função de nomear aquilo que em nós estaria solto, despregado de sentidos e pedindo compreensão e espaço para expressão. E quando isso acontece é muito gratificante.

Desde pequenos nos alimentamos da experiência de ouvir as histórias - fictícias ou reais - que nossos pais nos contam. Nessa relação em que um adulto conta uma história, o contato em si bem como a possibilidade de construir um enredo para a vida são experiências que fundam o psiquismo. Não é possível vida sem história e se ela não pode ser construída e compartilhada enterra-se num grande e isolado abismo.

O cinema para mim tem essa função terapêutica, além de outras, de procurar significados que poderão dar à minha vida sentidos libertadores e enriquecedores. Tudo isso para falar do último filme a que assisti, A Partida, com direção de Yojiro Takita. Trata-se de um filme japonês que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) é um jovem que, ao perder o emprego numa orquestra em que era violoncelista, volta para sua terra natal e acaba se empregando na função de nokanshi, uma espécie de mestre em preparar o cadáver para seu último momento. Essa prática, típica da tradição japonesa, consiste em limpar o morto, maquiá-lo, vesti-lo, e deixá-lo, então, belo e bem tratado. A cerimônia que era assumida pela família, passa a ser feita por profissionais e acompanhada pelos parentes e amigos, que assistem, num clima de silêncio, respeito e certo suspense. O rapaz se emprega nessa função, antes de saber do que se trata. E quando toma ciência do que lhe caberia fica aterrorizado e tenta esquivar-se.

A narrativa gira em torno do processo pelo qual o rapaz passa, em seu contato com a morte, desde o horror ao tocar e lidar com o corpo morto até o domínio alcançado graças ao enfrentamento e amadurecimento consequente; do horrendo a algo com uma beleza própria digna de respeito e reverência.

Paralelamente à história, corre outra trama, a relação mal resolvida do jovem rapaz com seu pai, que o abandonou quando este era pequeno, não aparecendo nunca mais. Várias coisas podem ser refletidas em relação ao filme, mas quero observar como foi importante para o rapaz a presença de um homem, seu patrão, nesse doloroso aprendizado em relação à morte. Ele, homem mais velho, que também havia passado por todo o processo, podia compreender e acompanhar o duro caminho que seu funcionário e discípulo tinha a percorrer. Sua paciência e firmeza em relação ao rapaz foram fundamentais para seu encorajamento. Penso que é nessas bases, da compreensão e da firmeza, que se assenta a função paterna, necessária para que o filho possa empreender sua aventura de abandonar os laços infantis e enveredar-se pelo mundo adulto.

Outro aspecto importante no amadurecimento do jovem foi a oportunidade de, ao executar sua função de nokanshi, tomar contato com os familiares do morto. Nessas situações ele pôde acompanhar as relações entre os parentes, suas reações, sentimentos e as diversas histórias que, ao lado da morte, representavam e contavam um pouco sobre a vida. Penso que isso ajudou o rapaz a reconstituir os sentidos de sua própria história.

E, finalmente, um terceiro comentário que desejo fazer refere-se a um equívoco que nós tendemos a cometer em relação à vida e às pessoas. O rapaz, abandonado pelo pai quando criança, passa a vida alimentando uma profunda mágoa em relação ao fato de que, além do abandono num momento importante, o pai nunca mais o havia procurado. Esse, provavelmente, é um elemento importante na composição de seu imaginário, pois ele entende - em sua lógica simplificada - que o pai não o amava nem se importava com ele. Ao reencontrar-se com este, no momento de sua morte (do pai), Daigo descobre que está equivocado e que fraquezas e temores rodeavam seu pai a ponto de o acovardarem diante da iniciativa de procurar o filho, o que não significava, de forma alguma, que não houvesse amor. Essa descoberta abre espaço, assim, para corrigir suas impressões, estas que o acompanharam a vida toda, de forma a reparar impressões de estragos e decepções profundas.

Penso que o se descobre aí é que nossa imaginação pode ser nosso cárcere ou nossa expansão. É sempre bom duvidar de nossas fantasias e cogitar que a vida corre muito além dos limites que desejamos impor para ela.

Élide Camargo Signorelli, Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

 

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