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Artigos - Psicologia

Nos braços de Morfeu... e de Hipnos
Por Élide Camargo Signorelli
30/11/2009 | Fonte: Integral.br

Esses dias minha filha, que está no auge dos exames vestibulares, comentou que os professores aconselham que os jovens durmam pelo menos oito horas por noite. E que, apesar das pressões sobre os estudos, do volume de informações a serem ingeridas e digeridas, o sono não é uma perda de tempo e sim um momento importante de repouso e reparação.

Esse comentário me fez lembrar uma reportagem que li na revista KNOWLED de agosto de 2009, número 2. A matéria intitulada SEMPRE ALERTA, por Robert Matthews, conta sobre pesquisas que militares americanos estão desenvolvendo sobre drogas antissono que permitem aos soldados lutarem por vários dias. A equipe de atiradores de elite do Exército dos EUA, que não dormia há dias, passava pelo Triângulo da Morte no Iraque, ao sul de Bagdá. Por causa do intenso calor, os soldados marchavam a noite inteira, dormindo apenas quando podiam. E, numa certa manhã, dois civis iraquianos entraram sem querer no esconderijo onde os militares descansavam, sendo, evidentemente, assassinados. O sargento Evan Vela foi condenado a uma pena mais leve, pois alegou à corte que não se lembrava de ter puxado o gatilho, pois estava em estado de privação de sono.

Essa situação não se restringe aos meios militares. Milhões de pessoas comuns enfrentam problemas com relação ao sono e à necessidade de repouso. E já se pensou em estender os estudos a todas as pessoas, com o intuito de buscar formas de driblar o sono e, quem sabe, bani-lo do repertório humano.

A vida agitada, as pressões constantes, as enormes exigências que o mercado de trabalho impõe para que o sujeito esteja alinhado e seja reconhecido, o desassossego e a ansiedade que permeiam as relações afetivas, as cobranças em relação à estética do corpo e aos padrões de higiene e saúde, tudo isso e mais um pouco vão empurrando o indivíduo para uma sensação de que lhe falta tempo para cumprir e satisfazer tais ideais. Diante de tamanha euforia, o que vai acontecendo é que tudo que atravessa esse caminho de constantes conquistas é sentido como obstáculo, como atrapalhação, como inconveniente.

O corpo, por exemplo, tem um funcionamento baseado em ciclos, em tempos de maturação. Vejamos a mulher cuja menstruação ocorre a cada 28 dias, aproximadamente, com uma duração que varia de 4 a 8 dias, dependendo do caso. A gravidez que tem uma duração de 9 meses. A fome, necessidade que não cessa e sinaliza uma providência contínua de satisfação e nutrição. As necessidades físicas que diariamente precisam ser atendidas. O ser humano possui um relógio biológico que necessariamente avisa sobre a precariedade do corpo que exige cuidados constantes.

Somos frágeis, sensíveis e mortais. Se não nos cuidamos, adoecemos e morremos. Isso pode parecer óbvio, mas numa sociedade com apelos anti-humanos e arrogantes em relação à natureza humana, há uma grande tentação em se buscar artifícios para boicotar e negar aquilo que pode competir com o desempenho idealizado para a atualidade.

A sociedade de consumo e a indústria farmacêutica logo se apressam a oferecer os produtos que podem colaborar para essa eficiência almejada. Estão aí os energéticos, as bebidas cafeinadas e os remédios inventados para construir um sujeito sem sono, sem dores e, se for possível, sem angústias e sentimentos. Uma nova geração de compostos está sendo pesquisada para conterem a fadiga por dias, com mínimos efeitos colaterais. São chamados eugeroics - em grego - "estimulantes benéficos" e oferecem a perspectiva de uma vida que pode se livrar da necessidade de repouso.

Dormir pode começar a ser tomado como uma atividade na contramão do eufórico desenvolvimento. Pode ser uma perda de tempo e o tempo urge e precisamos ser produtivos, consumidores e consumidos. Os efeitos dessas medicações ainda estão sendo estudados e felizmente não se tem clareza suficiente sobre a eficiência de se abolir o sono da nossa vida.

E aí eu me lembro da expressão Cair nos braços de Morfeu, que ainda se usa para demonstrar o prazer de dormir como sendo uma entrega aos braços de alguém que irá acolher-nos nesse momento de necessidade. Pesquisando essa expressão, descobri que, na realidade, é Hipnos o deus responsável pelo repouso, na mitologia grega. Filho de Erebo e da Noite, Hipnos era o deus do sono. Entre seus filhos estava Morfeu, que tinha o dom de revestir de sonhos a imaginação das pessoas adormecidas. Os povos primitivos e da Antiguidade viam o sono não apenas como atividade fisiológica, mas como uma das manifestações do sobrenatural. Assim, Hipnos era o deus do sono e Morfeu, dos sonhos.

Quais seriam as consequências para a anulação da atividade do sono? Bem, logo penso nos sonhos, que só podem acontecer à medida que a pessoa dorme. Será que devemos renunciar aos sonhos, essa capacidade criativa e imaginativa tão rica que nos dá ilimitadas possibilidades de representar nossos sentimentos, conflitos, angústias e desejos? Seríamos como um cinema sem filmes, uma mente sem símbolos? O que faríamos sem sono e sonhos? Transformaríamo-nos em zumbis, em autômatos? E o inconsciente, como se manifestaria sem a possibilidade que o sonho lhe daria? Restar-nos-iam os sintomas apenas? Ou pesquisas aparecerão para abolir o inconsciente também?

Muito me preocupam todas as tentativas predadoras de tirar do ser humano aquilo que o humaniza. Os professores da minha filha podem ser considerados retrógrados para a nova era dos sem-sono, mas todo progresso requer atenção e observação antes de ser aplaudido.

Por via das dúvidas, bocejemos, durmamos e sonhemos!

Élide Camargo Signorelli, Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

 

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