INTEGRAL - Quando eu crescer, quero ser poderoso

UNIDADE I

R. Cel. João Leme, 410
Bairro: Centro
Fone: (011) 4033 1118

UNIDADE II

Av. Salvador Markowicz, 571
Bairro: Jd. Sta. Helena
Fone: (011) 4032 4971

UNIDADE III

Av. Salvador Markowicz, 541
Bairro: Jd. Sta. Helena
Fone: (011) 4033 5352

contato@cursointegral.com.br
Bragança Paulista - SP

Artigos - Psicologia

Quando eu crescer, quero ser poderoso
Por Élide Camargo Signorelli
06/01/2009 | Fonte: Integral.br


Estava pensando sobre o fato ocorrido no início de dezembro, em que um grupo de formandos em medicina da Universidade Estadual de Londrina, após comemorar o final do curso em um bar, invadiu o hospital universitário - que fica em frente - com sprays de espuma, bebidas alcoólicas e rojões. Os formandos passaram pela ala onde estavam internados pacientes em estado grave. Houve pânico entre funcionários e pacientes, ofensas dos alunos a pacientes, estouro de rojão no interior das dependências do hospital, champanhe quebrada no saguão e sabe-se lá que outros detalhes escaparam à observação.

Tentando imaginar o que se passava na cabeça dos ilustres formandos, pensei que talvez um dos sentimentos tenha sido algo do tipo: "Agora eu sou médico e o resto é resto".

Dizia o jornal que não é a primeira vez que ex-residentes e médicos residentes da UEL se envolvem em casos polêmicos. Em 2005 foi criada, em orkut, uma comunidade em que inseriam frases racistas e sexistas contra servidores do hospital.

Por causa do incidente foi entrevistado o coordenador do exame do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo). Ele fez reflexões sobre as condições atuais dos cursos de medicina, comentou que há uma preocupação grande com o conhecimento técnico e científico em detrimento dos aspectos humanos, esses que dizem respeito à relação médico e paciente, e acrescentou que a medicina, hoje, virou uma atividade capitalista, porque muitas vezes o jovem escolhe essa profissão mais pelo prestígio e pelo dinheiro que tal atividade pode lhe trazer do que por qualquer outro ideal. O coordenador contou, ainda, que hoje há uma grande procura pelas especialidades de cirurgia plástica, dermatologia, cosmetologia e radiologia, pois são geradoras de muito dinheiro e exigem menor envolvimento com o paciente. Vai começar a faltar médico de outras especialidades, disse ele.

E aí me lembro de quando perguntamos a uma criança sobre o que ela quer ser quando crescer e ela responde: "Eu quero ser pediatra, porque eu gosto de crianças", ou então "Eu quero ser bombeiro". Provavelmente o encanto de ser bombeiro estará mais naquele enorme e reluzente caminhão vermelho, que impõe tanto respeito quando passa acelerado pelas ruas. Podemos ver, já na criança, um desejo de ser poderoso, um pouco herói.

Hoje, na coluna de Marcelo Coelho, articulista do Ilustrada, na Folha de S. Paulo, ele comenta, entre outras coisas, sobre as adolescentes americanas que se divertem expondo fotos provocantes no orkut. Uma delas, ao ser entrevistada sobre o porquê de fazer isso, responde: "Ele (um garoto que ela conheceu) me pediu para mandar por e-mail. No começo eu pensei: "Você está maluco?" Só que, um dia, eu estava sozinha em casa e resolvi mandar... Eu só quero que ele me deseje. A questão é de poder, realmente de poder". Não são apenas as adolescentes americanas. Já vemos isso, também, com as nossas meninas e meninos. Já sabemos que o poder é um elemento sempre presente na condição humana, isso é velho, existe desde que o ser humano é humano. Humano? Aí é que está o problema.

Nascemos precisando do poder, caso contrário seria quase impossível sobreviver. Saber-se frágil e totalmente dependente é insuportável para um bebê. Ele precisa contar com a ilusão de que é o criador das coisas - de si mesmo, de sua mãe, do leite que o alimenta - para que a vida não fique tão aterrorizante e ele possa, então, vivê-la. Mas é de se esperar que, com o passar dos dias, dos meses e anos, esse bebê vá caindo na realidade. Que realidade? Esse é o maior enfrentamento que nós, seres humanos, temos de fazer para podermos viver a vida como adultos: enxergarmos e aceitarmos a realidade.

Freud, na psicanálise, trouxe grande contribuição quando falou sobre os dois princípios que regem o funcionamento psíquico, o princípio do prazer e o princípio da realidade. O princípio do prazer é um sistema em que se busca a gratificação imediata. A pessoa busca o prazer e evita a dor. Não se pode esperar nesse sistema. As coisas têm que ser quase mágicas, instantâneas e muito prazerosas. Por sua vez, o princípio da realidade caracteriza-se pelo adiamento da gratificação imediata. A pessoa aprende a suportar a dor e a adiar a gratificação. A dor, aqui, não é somente física, mas é a dor inerente às frustrações, às decepções, às exigências todas que a vida impõe, o tempo todo. É a dor de perceber-se pequeno diante da grandeza da vida. A dor de saber que para tornarmo-nos humanos precisamos fazer esforços, o tempo todo, precisamos ser não só o "empresário", digamos, de nossa construção pessoal e sim, também, o empreiteiro, o pedreiro e o ajudante.

É duro enxergamo-nos como um ponto no universo. Só com o amadurecimento podemos redimensionar e ajustar melhor o nosso lugar no universo. Enquanto não chegamos lá, vamos escorregando nas pistas do poder. Alguns de nós escorregam, caem, mas levantam para continuar a empreender o esforço que nos é exigido para viver. Outros ficam detidos nas delícias aparentes do poder... aterrorizados!

Élide Camargo Signorelli, é psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

 

Início Voltar

 

Home | Trabalhe Conosco | Política de Privacidade | Mapa do Site | Uniforme | Cardápio